a casa real desarruma finalmente a mala de viagem

sou um gato menos estranho. arranho-te com a mi(nh)a alegria e com a mi(nh)a ironia.

22.12.09

suspensó(RIO)

Um suspensório atara-me ao céu.
Desfeito o nó, espalharam-se pelas terras húmidas os vestígios alados.
Na tentativa de recuperar a forma – essa inquieta permanência – os joelhos revelaram a sua transparência.
Foi nesse lugar que me quedei, escutando-o:
- O contorno;
- A ruga;
- A ferida.
Qualquer coisa de sideral explodia-se em fumo:
A memória trazia em braços um pirata, um barco e uma vela,
Coisas, por acaso, simples,
Contrariando o espectro dos factores,
Destes, cito os nomeáveis:
Uma cortina de mulher, sete ossos de um penedo, um baloiço estagnado,
uma criança de bigode ferrugento, mãos acres tocando um violino (um som estridente rasgando penínsulas).

Voltar a um lugar é sempre desaparecer.
Um catálogo pode manchar para sempre uma memória,
Cingi-la a nada.
A concepção é moldar barro e esperar maturação.

Esta plasticina que me caiu por engano in personna multiplus difusus,
Contesta a permanência e rói com o esqueleto um plano mutável,
Convoca para a cerimónia um apego de longe.
O coração está cheio, transborda,
O líquido bebe-se mas não evita o granulado,
Recua do palato, condensa-se nuvem e chove.

A inevitabilidade de um caco é bela:
Repara na poética harmónica. Emociona-te.
No entanto, sem o velho, é vazio o som.
O velho chora e eu choro com ele,
Enchemos uma garrafa e desenhamos ondas,
Este mar é um improviso para a nossa dor.

Nesta pauta deixo tudo quanto herdamos.
É um poema mas devia ser gente e andar pela rua,
Ter pernas falantes e estímulos para a luz.

É inútil esta perícia de pensar,
Se esquecemos a música dentro da caixa.
Eu quero lembrar-me para sempre deste quedar de folhas,
Envelhecer primaveralmente, outonizando a neve.

A errância é lúcida.
Enal-TECE.

2.12.09

CEIA

Volátil é a comida no prato onde pintas os olhos dos legumes.

Rasga em dois a mousse que fizeste com o medo do teu próprio fantasma,
é doce - a mousse com o medo- mas não gera cerejas, nem se arboriza clareira.
Essa criatura que te afaga, contrariando a correria dos ventos
pode ter segredos que te interessem,
repara como a rotativa serigrafia contraria a teoria,
transladando-se de palco para palco.
Traça -trança- um plano de fuga com fumo de chaminé antiga,
ali encontrarás ancestrais encantadores,
como um cântaro de barro
ou uma colónia de rosto,
gastos pela cinza.
Refugia-te nesse pequeno espaço que é um vale entre precipícios e crateras.
São nuvens mentais, dirias,
mas eu engaveto tudo e numero, só depois baralho.
Agrada-me o excesso de substância evasiva em mim.
No mesmo quintal cultivo folia e solidão,
para quem nunca me sabe, a morada não tem nome nem ideologia.
Guitarra-se porque a música faz parte do seu improviso,
de resto, devora relógios e cospe ponteiros.
não tem pontaria porque não aponta,é leve,
no entanto, quando se esvoaça cai-lhe um peso em cima chamado beleza
e tem medo...
será que aprenderá a nomear tais matérias?
Dialoguemos:
Como vês esta beleza que agora mesmo avistei?
Descrevo-ta:
uma estrada estreita dividida em dois, onde não cabe mais do que um pardal e um gato,
cada um, em cada lado, fugindo, enamorados.
Prevendo a tua resposta, rabisco com algum cansaço este recado:
NÃO ETIQUETAR A SINTONIA A PARTIR DO SEU PRÓPRIO PADRÃO.
A DISFUNÇÃO PROVOCA URTICÁRIA, REBOLA-SE E NÃO SABE PARA ONDE CAI.

Dejecta-te desse prédio abaixo,
volta a subir pelas costuras dos alicerces,
faz desenhos nos vidros com o vapor dos teus dióxidos,
a estrutura da construção é um mi(N)to ocidental.

Vou regar-me de sol,
longe onde as plantas ordenam o crescimento das lagartas, em partos sem dor.
Padronizar envelopes de plasticina
como quem se nega a respirar duas vezes sob a quotidiana superficie de um quadrado.
Quantas imagens cabem no teu nariz?
Qual é o lado por onde começa a manhã?
Qual é o mar que um pirata escolheria para morrer?
Com que idade o coração cicatriza em borracha para pinchar mais alto?

Fico-me suspensa neste acorde impraticável.
A música consome-se do prato.
Na hora da ceia repartirei este pão pelo poema
sempre me encantaram as migalhas.

9.10.09

tenho 7 metros de corpo, se comparado em galáxia morre-se
Eu sempre gostei de vampiros gemerosos.

20.9.09

Divino -parte 3

Hoje encontrei-te o rosto:
analiso, verifico,
sou pragmática nas metafísicas de ti,
agrada-me segurar os frágeis cabelos de ar onde te sustentas, magnífico,
sempre diferente do poema-poéme.

Enquanto arquitectas possibilidades,
invado o teu reportório,
componho-te poemas,
foi de propósito que quebrei o copo,
queria engravidar qualquer coisa que não fosse a minha utopia,
tenho sete palmos de imaginação soterrados nas crateras longas dos olhos,
se parares mais tempo,
podemos converter esta tonelada num desafio de Pictionnary.

Páro-me de propósito,
o pensamento atarracado em minúsculas garrafas,
tenho um vinho e uma propaganda:
não sei vender nada que não me prove,
o vinho sabe-me de cor o palato,
é ele que me visita,
que não te engane:
o copo pega-me na mão,
o líquido derrama-se,
abro a garganta na página 33 onde figuram os rostos e os amantes,
depois durmo e sonho.

Eu devia dizer-te que Díonisio leu demasiada literatura,
amou mulheres como homens,
reverteu, converteu-se, humilhou-se, glorificou-se.
No fim, não escreveu livros,
compos vinhos.
Deixou-os de herança, especialmente para ti,
é natural que te tentem.

Lambo um livro, fujo de presenças vivas,
carrego-te, fugudio não veleiro,
não tens mar dentro e isso é uma coisa rara
nos homens atlânticos.
Duras escreveu-te as rotas,
geometricamente falhaste,
bastou compreenderes o somatóro das partes.
Quanta matemática existe num poema?
E numa mulher?
No tubo de ensaio onde te vertes em velocidades ambivalentes,
verifico-te o bolor das asas,
digo-te, quanto mais velho melhor,
desde que não definhes em filosofias autodissecantes.
Escreves-me porque me avanças,
ditos os nomes todos,
estas palavras continuam a ser tuas.

Onde guardaste o coração?

17.9.09

Divinus- parte II

Vim dizer-te:
tenho uma tragédia chamada coração,
podes rasgá-la, de nada se vale quando projectada para lá de mim.

O futuro é uma linha e uma vidente
e todas as possibilidades que se manifestam a partir daí.
Tenho um útero ferido,
um pássaro por remendar,
não me projectas para os ocasos solares,
sou de nascentes:

- Da primeira vez que vi nascer sol á tinha nascido e eu amei como se fosse meu;
- Da segunda vez que supus que nascesse desfez-se onda em espuma;
- Da terceira vez trazia tudo tão certo -até os colarinhos da alma - pensei que fosse a sério.

Rasga esse título,
somo-nos sementes de desertos,
a orgigem valeu-me sempre mais do que aquilo que
os homens não estão dipostos a dar-

estou cansada de dar....

11.9.09

DIVINO . parte 1

A minha ultima filosofia foi esta:
engolir vento para distrair o pensamento.
parece absurdo, mas antevejo um mundo poético e surdo,
não te arrelies se me vires a esboçar gestos para a lua,
no fundo sempre me cativaram os silêncios.

Conto a história de 2 homens que tiveram 3 filhos,
a partir daí fizeram palácios,
para mim tornaram-se inúteis as antiguidades,
eles eram presenças multiplicadas em beleza:
Um fez-se música, o outro fez-se vinho.

PIERRE MAUBILLE ESTUDA O MARAVILHOSO,
DEFINE-O COMO O ACASO RARO E IMPROVÁVEL QUE NOS REVELA O DIVINO-DIVINUS.
Este poema foi feito de propósito para ti,
para que te coubesse inteiro numa quimérica conversa
de lés a lés longa,
diversa.
Sei que te inadequas em busca de centro,
o avô transformado motor,
avião de rapina,
iminente movimento que se persegue em redutos inarráveis e alquimicos.
Estou longe e escuto o som veloz com que te corres em sangue.
No limite só recorto papel para que me escutes,
perco-me em estratégias que me diversificam,
prevejo nas tuas mãos linhas que não asseguram conjugações perfeitas.
Explico-te agora
o que não caberia num teclado inútil,
fazes-me barulho dentro,
iluminas artérias.
Deixa-me por enquanto inábil,
procuro a perícia com que encantas os móveis imemoriais,
devias profetizar as sensiveis sabedorias que recolhes
em respiros.
Dispara-me histórias,
tenho epidérmicas sedes,
dói-me quem morre mesmo que não seja dos ditos meus,
sensibilizo-me com paisagens simples,
não me sai da cabeça a imagem do saco de plástico do American Beauty a esvoaçar
durante longos segundos na tela do cinema.
Tenho pericia para inúteis afazeres,
gosto de botões sem casa,
guardo coisas pequenas em espaços mínimos como um coração.
Tens medo?
Ignoro a resposta,
mina-me a pobre intuição.
No entanto, sei:
Nunca temerias ver-me acordada sobre nenúfares,
mas não sou rã, nem mulher,
misturo-me em mesclas,
pinto-te o cabelo a ouro acetinado,
teach me something wonderful!
No entanto,
agressivamente afagas a prateleira dos vinhos alentejanos,
divides por regiões o que não se pode dividir.
Tenho uma península demarcada,
reajo a combustões,
escapo por conveniencia,
educadamente celebro e destruo,
tenho duas mãos aptas e polarizadas.
Registo neste espaço aquilo que o quotidiano inutiliza,
para que leias o que te couber em delícias.
Devia dizer-te mais,
mas tardam-se os dedos e eu vou mais veloz.
Vejo-te amanhã?

3.9.09

M -i- AU

passei o dia a catar luz ao sol,
não é por acaso que ardem brasas nos desejos.
este é um estado que se contempla sem sossegar,
levanta-se cedo, mas infrange a lei do silencio.
este estado grita-se, despe-se devagar.

devia trazer agarrado à saia um nome estranho,
um sobreaviso que acautelasse quem se aproxima.
tenho doenças nos dedos: escrevo demais.

é claro que pensando na minha situação de felino domável,
limo as garras e faço de conta(s),
somo os inversos e faço chapéus que cobrem telhados.
tento ser perfeita na arte de incendiar janelas e comer cinzas.
tenho tudo certo num calendario de improvaveis.

a minha unica malicia é alimentar-te,
trazer-te numa jaula que me bate dentro,
sorrir-te de esguelha para não te ver os dentes.

estou a curar a ferida do joelho,
antes de voltar a cair.
a cautela nunca foi demais.

M(i)AU, M(i)AU!

26.8.09

Cada menino tem a sua aldeia... cada menino tem a sua ilha...

MELANCOLIADOCEÉUMACOISAQUEOCUPA OSOLHOSOCORAÇÃOETUDO.TÃODEPRESSAAQUECECOMO ARREFECE.ESTAÉAILHAREALDETRODEMIMREALCOMSERESREAISDEAUTENTICO
AMOR.

TODOS OS RASCUNHOS. AS ESCRITAS QUE FICARAM SUSPENSAS NO TECTO DA CASA.

Os proximos textos a serem publicados agora mesmo estiveram na sombra da casa, debaixo do telhado, tímidos de meter dó, porque não estavam inspirados, estavam meios mortos, tentavam ser interessantes.
Os textos que se seguem depois deste estão incompletos, estão tortos, são frágeis. São defeito. Vão saltar agora para fora da casa, passear no jardim, só porque sim.
Finalmente livre.
Nota: Como foram textos escritos ao longo dos meses e guardados, alojaram-se agora nos devidos quartos. Sairam dos fundos para ver alguma luz. Estão numerados de 1 a 27, nos respectivos meses em que se escreveram.

POEMA . o jogo do poema

POEMA
com P escrevo pato e patife
com O escrevo olho e ovo
com E escrevo
com M mio porque sou gato
com A Amor porque ainda não encontrei palavra que se ouvisse melhor, que soubesse melhor, que fosse tão, tão, tão boa de se dizer e fazer.

MANIFESTO só porque sim, simples homenagem às composições que nos iniciaram nas artes de pensar nas evidências e repeti-las até à exaustão

eu escrevo nesta casa, porque esta casa pensa-se mais rápido do que eu. Os trabalhos de costura da escrita, faço-os no escurinho, só eu é que vejo e mais nada., mais ninguém.

esses trabalhos depois vão para montras e podem até fazer livros... não se sabe... nunca se sabe.

esta casa, como é a minha casa, é também um espaço de liberdade e coisas boas e más e ... um espaço do que as coisas lhe apeteçam ser. e isso é bom. e isso faz falta.

todos devemos ter uma casa.

Nota:
Evidências repetidas até à exaustão nas composições:
1. A Primavera é uma estação do ano.
2. O Dia do Pai é no dia 19 de Março. Eu gosto do meu pai.
3. Quando crescer quero ser ... porque ...
4. Nas férias diverti-me muito.
5. ...

Carta da cidade queimada

Eu vinha dizer-te que houve um último incêndio. As pessoas em delirio entraram pelas bocas dentro. Eram pessoas caídas por todo o lado... uma devastação. Eu passara tantos anos a amar-lhes o rosto, não pude crer que morriam por ali, dentro de mim, dentro da cidade que também sou.

Recuperar a terra demorou tempos que não te sei contar, mas fez-se, porque o tempo tem tudo o que é relativo dentro: estica, estreita-se, dilata, esfuma-se. O tempo é uma doença que se cura com..... tempo.

Neste incendio também senti feridas as aves, as estrelas, as figuras dos museus. Ficou tudo devastado nesta última estação.

Enfim, não vim para causar confusão, vou sair de mansinho para que não me escutes. Conto-te o último relato desta embarcação quando já não avistar terra.

Silêncio que se vai cantar o nada.

25.8.09

Falhar (so glad to see you . Hot Chips)

Se voltares,
aconchega as pedras da rua.
dá-lhes a docil tendencia dos astros
sob o céu de Verão.

Quando voltares a escrever,
diz-me desses dias onde estiveste, silencioso e atento,
a observar uma floresta crescer dentro da mão de um provável amor.

Esqueci-me -mais uma vez-
que o coração não se força a nada,
tentei amar um corpo plástico e perfeito.
todo ele feito à medida do meu capricho:
enervava-me,
atirei-o às margens do vazio (donde nunca saíra).

Eu nunca pedi para escreveres poemas,
basta deixares um número para o qual possa ligar,
a noite tem picos de dor,
é uma febre estranha que me visita.

Posso ligar-te pela manhã?
Há pirilampos que não sucumbem na madrugada,
podemos procurar-lhes as ocultas belezas,
como essas que trazes debaixo de ti.

Vamos repetir tudo,
invertendo as cenas.
Eu farei de ti, acreditas?...
...repara como sou ineficaz
quando tento ludibriar-te..
nunca saí para um terreno que não fosse eu,
mesmo quando me reinventei.
Se amares a metamorfose que te conto,
poderemos criar melodias,
fazer poemas ou saladas,
comer gelados e pensar livre....

Agora calo o poema,
sei que te aflijo quando parto para metáforas sem
pré-aviso
(são 20 segundos de pura beleza,
qual droga tropical no meu delirante desejo de pássaro).

Quando voltares faremos tudo à tua maneira,
gostava de me experimentar em ti, assim,
inteira.

Ainda me vives,
se te ralho é só porque não vês o que eu quero que vejas:
os meus braços, as minhas pernas,
o meu umbigo,
todas as partes de mim.

Devias tornar-te atento à imobilidade.

22.6.09

1

Tinhas deixado na mesa da sala um recado inútil.
rasguei-o para te dizer que do meu avesso,
avistas as palavras certas para compores em verso um sorriso
ou um barco retalhado em papéis dispersos
que sejam apenas ode de amantes
ou náufragos.

Quando voltares a passear nas montanhas do meu umbigo,
seguiremos com as mãos a rota das estrelas.
Ferirás a primeira dor,
para lhe causar medo,
mas de nada valerá

Serão tuas as caricias deste vento que me chega de empréstimo?
Serão tuas as formas que cavalgam a planicie horizontal?
Serão teus os sussurros dos passos invisiveis dos anjos?

Deixa-me ser dramática,
decorar-te o quarto com semblantes de sereias,
inventar-te um itinerário de amor.
Quero-te de braços inteiros semeados nos meus movimentos.
A tua sombra tem eco?
Porque te escuto se deixaste o quarto vazio pousado em cima da minha ternura?
E agora o que faço da minha ternura transformada tesoura?

Cortaste-me o coração à escovinha e ele nunca mais cresceu..
Mirrou e nem um pássaro lhe debica o rosado contorno.

Por isso deixei de te cantar

16.6.09

2

Dez dedos em cada mão
cortados na brusquidão da escrita.
As palavras não suavizam as veias,
arreliam-lhes o interior líquido.


Sei que faltei à tua última festa

mas desde que me mudei para a ilha,
dedico-me a dedilhar poemas vagarosamente.

Tenho plantas lentas no lugar das asas

que se evadem pela madrugada.

Já não bebem da mesma pele,

secaram a ausencia numa corda de linho,

estendida ao lado de três peças de roupa barata.

Ouvi dizer que no evento que organizaras
trajavas como um rei pobre,

ostentando
na cabeça uma coroa de galhos com sede.

O teu rei morrera a tentar um castelo...

A tua casa tinha pó e eu sorri,


porque era um resíduo antigo


- e o último-

que te ficara de mim.

Eu enviuvara de propósito,
para cercar com um círculo vermelho a tua varanda
e disparar-te o silêncio como uma laranja amarga-velha,

capaz de encher de acidez os móveis por onde o teu corpo se segura.


Pediste-me baixinho para voltar,

omitiste o local,

disseste que se eu fosse a número 1

a telepatia resolveria a angustia de te perder em mapas e geografias.




Encontrei-te do lado de fora do portão

onde um velho rachara tábuas para construir o seu próprio caixão.

Ao caixão acrescentou um par de águias

que voaram para lá da vida que respirava,

mas nada que não fosse o teu rosto concreto me comovia

e foi assim que em morreu a poesia.




Não é nada disto que tenho para te dizer,




na verdade só faltei à tua festa porque me doía a dança




de te ver repartido nos passos dela.



O meu coração guarda um espelho por onde te reflectes e metes



e a narrativa que te memoriza ainda sabe que mentes para


me evitares triste.












tem música de violino ao fundo,



como um Atlântico transmutado música.







Tenho-te guardado num frasco transparente. mas sempre me danas



e confundes.



Dei-te das trovoadas apenas a sua revelação de luz,



anulei das estações, as insónias e os presságios.



Movi a terra dos teus sapatos,



que te desdenhava em surdina,



mas nada trazia vida ao pedaço morto de amor que me dedicaras


na estção do sol.




vai para lá de muitos tempos, o dia em que quebraste a rua pela metade.
O caminho tem chaama-se NÓS e disse-me que um amor também se morre.





Não é assim que se separa o mundo, é por vontade.




Um meio mundo imposto é como uma mão sem tinta.

3 FERRUGEM

Sabes,
a ferrugem tem voz.

De nada vale duvidares da idade do coração.
Um coração também tem ferrugem.
Um coração também tem uma voz com ferrugem.

17.5.09

Vi-te primeiro.

(Eras alto, porque eu te via alturas a partir dos olhos.
Eras rude, porque não sabias beber vinho sem destruir a estrada que te levava
seguro, de ti a mim)


Para que não duvidasses do barro
com que cosntruira os três palmos de mim,
cantei-te ao ouvido,
aquilo que era sede e chama,
aquilo que era eu.

Começava a contar-te a história pelo fim:
primeiro voei e só depois,
muito mais tarde comecei a andar.
Iniciar-me pássaro,
foi para os grandes mestres motivo de discórdia.
Teria de te dizer que comprei mais tesouras do que jóias.
Cortei as penas de ter asas
só mais tarde, arranquei com lâminas
a pena por não ter asas.

Sou inofensiva,
nunca matei galinhas
e tenho medo de insectos de carapaça negra

Alimento-me de movimento, basta-me biciclet"ar".

(continua...)

13.5.09

FRIO (difícil dizê-lo em voz alta)

Poderia ser 57 de Agosto de 1923...
O tempo é uma existência cheia de improbabilidades.
Nos ecos escutam-se
orações repetidas de tédio
e há quem caminhe pelo vício
de não se imaginar em amor confinado
ao luto de ser apenas dois.

Inventei-me num vestido
compilado em livro.
Na página 1 lia-se exacatamente a mesma coisa
do que na página 45.
Repetia-se o escrito na página 97
e de tanto leres as mesmas fotografias,
pousaste o livro.
De seguida,
pousei-me também num livro
e numa atitude de bucólica esquizofrenia,
inventei paisagem numa noite mais longa
do que eu.

Devoraste o tecido
para que a minha nudez te surpreendesse,
ou então foi só o indistinto desejo :
pousar corpo como quem pousa cansadas asas,


Retalhos de ave
davam forma às nuvens,
Quando choveu o desepero esvoaçou-se na água.

Se não fores capaz
de escutar
o enorme edificio de silencio
onde assentei as casas e os dedos,
revira de novo o meu corpo,
aponta-me para sul.
O norte,
constataram as nossas sedes diluidas numa só,
é uma estratégia pérfida
e a nostalgia é a acidez do coração.

Deixa que os meus cabelos recuperem a cor
do incêndio,
corpo queimado
a contraluz
num papel de parede colado
por improviso à porta de mim.

Sabe-me a romã este pêssego
que me chega fora de estação.
Não durmo mais do que cinco minutos
há muitos anos,
sinto uma dor que
me queima a intimidade.
Já não me revelo,
suspensa na fotografia por materializar.

No fundo, andava a buscar alguém
para amar,
alguém que fosse novo
e acreditasse na beleza dos pássaros.
mas como esqueci o código que sela a natureza
em castidade,
encontrei as sete magnólias transformadas em manequins
de gosto duvidoso.


Eram mil poemas e um músico sem guitarra.
De pásssaros,
percebo a distância.
Asa, casa,
derrubo a primeira parede
onde escrevera o teu nome
a tinta de água.

Aumenta o volume da música.
dança mais uma vez,
desliga o fluxo
que te leva nas avenidas do sangue alheio,
Vamos começar pelo lado prodigioso
do riso,
ouvir em repeat o tema
que cobre de amor a pele.

A água seca a cor
inebriando de espectros luminosos
a tua palidez.
visto a milimétrica distância
tens a aparencia de um anjo
derrubado em jogo de matraquilhos.

Estende de novo o tabuleiro,
joguemos o corpo a dinheiro,
ou a qualquer coisa de fútil
que não faça poemas quando se ausenta,

cansa-me esta tardia melancolia,
a poesia serve-se fria?
(...)

11.5.09

4

Esta era a última vela.

Quando acabou de arder,

disseste:

- repara na luz que se solta do corpo ocre

do silêncio escuro.



Nao te vejo,

agora que ardeste o tempo inteiro

tenho doente o lado felino,

o escuro não é uma metáfora,

é o meu corpo dentro de água.

Nado e o seu feminino imediato:

Nada é o que fica a ocupar

um território de sangue.



A doença do corpo é milenar.

5.5.09

Dance

(Tinham passado 29 anos. Eu tinha finalmente percebido que sem leres a minha -patética- poesia, nada de mim saberias. Este poema está livre de metáforas. Suicidou todos os aforismos. Este poema é uma árvore plantada no teu jardim).

Nunca soube o que fazer de teu corpo,
tinha desajeitado o desejo,
ao ver-te inteiro e desnudado,
primeiro a pele,
depois o sangue,
depois a guelra e o peixe.
Eras tantos!
Ora terra castanha,
ora transparente água de beber,
ar inviolável de tocar,
casa insonora,
fogo que queima baixinho.
Viesse o poeta
e falasse de tudo o que arde sem se ver,
e então talvez te tocasse no ombro esquerdo.

Duas marcas!...
E as marcas, ficaram lá?...
Como não me eras estranho,
sempre te entranhei a melodia.
Já eras antigo
antes de me nascer corpo
e violinos.
Como te dizer dos teus dedos caídos
nos meus sentidos?

Segurei-te com pregadeiras
às raízes dos meus cabelos
para que crescesses comigo.
Nunca mais tesouras!
Nunca mais cortar-te!
Foram 33 metros de longa cabeleira
multiplicados pelas vísceras,
pelas guelras oxigendas,
pelo mordomo da casa,
que procurava nos escombros da terra
um limoeiro depenado
e rabanetes cor de ferida a sangrar.
Tu rias a bom rir,
que é uma forma de te dizer que o teu riso
-O TEU RISO-
me fazia feliz.

Haveríamos de ver juntos as Índias,
primeiro um caril saboreado ao sol,
depois um deus de papel incendiado
e um gelado de manga para finalizar.

Falo-te de coisas banais,
como quem te diz,
que contigo,
é tudo sempre em primeiro.
Não há corrida nem desvio.

Haverias de fotografar-me
num piscar de olhos.
Eu, vermelha, queimada de sol,
e mais uma vez o teu riso,
a tarde tão cheia
...não tardes,
não tardes...
que haveria de invejar os olhos de transeuntes
quedados em nós,
de espantos muitos.


As palmas dos pés,
já sabes,
estão manchadas de gravidade,
como as sobrancelhas,
ao ver-te suspenso no fio da montanha.
Não me caias,
suspira-me dentro
com bons fôlegos
e carícias de conversa lenta.
Estes são os meus dedos
e tu és o meu primeiro piano.
A melodia com que nos repetimos,
é sempre UM,
a primeira,
irrepetivelmente igual.
Eu tenho poemas em todo o lado
e todo o lado tem um poema que és tu.
Canto-te para dançar.

28.4.09

De nada a tudo

Sentei-me de vez.

Escrevi palavras,
a marcador amarelo,
num livro que não voa continentes.
É pena...
devias saber
como morro,
mas não te sei falar
como se me morre uma alma.
A alma, tu sabes,
tem anagramas escondidos.
A dislexia perdoa as falhas,
sempre que trocamos.
as letras ao mundo.
MUDO?
As luzes cansam-me.
No final de cada consulta
a recomendação foi sempre a mesma:
a melancolia, menina,
há-de destruir-lhe o fígado.
Aceno que sim,
bebo o vinho,
repetindo-o nos gestos.
Afinal, esta era a dança
e dança-se sozinha.

Estar numa ilha é
como estar em mim, afinal.

Mas tu,
incandescente veleiro,
regressa nas ondas
quando te apetecerem as vagas.
Não tenho minutos,
nem guardo moedas para a semanada,
consulto videntes,
só por um acaso.
Não me destruisse a arte
de estar só,
e cantava-te qualquer coisa
mais colorido.
Não posso.
Não sei.
Não quero.

Penélope a cozer
velas de navio,
num cais de fantasmas,
gastronomia inútil
servida à lua.

Era assim que o livro escrevia:
Conhecer o poeta
era melhor do que conhecer o poema.

Eu que sou dada a orações,
voodoos intermináveis,
onde o ritual é o meu próprio corpo,
semeio o poema,
na esperança que nada nasça,
semeio outro
e outro
e outro
e outro.
Sou terreno de sementes.
Que não me nasça o livro,
antes de ti.
Quero ter tempo para te escrever
inteiro,
mas o tempo envelhece
mais depressa os dedos
do que o rosto.

Chegaremos por fim
ao destino,
uma casa que não precisa de
poemas,
um mar que não precisa de navios.
Confundidos na paisagem
do corpo sem leitura,
diremos então nada.

Será tudo.

20.4.09

L'AMOUR LA FOLIE

espero-te.

reguei de sol
a raíz do teu sapato,
para que iluminado o caminho
seguisses
o endereço indicado
no verso
do meu sorriso.
Primeiro esquerdo era a morada
e chamava-se no bairro:
coração.

Rasguei a madrugada,
as 333444 lágrimas
que encheram o livro
dos homens em atlântico.
Soletrei a letra
do teu nome.
Soprando-lhe assim:
L (éle.)
U (úu!)
Z (zzee....)

Teci-me toda de branco,
outra vez,
mais uma vez,
quantas vezes?
para que me confundisses
a pele com a sede:
a sede de beber
a sede de sentar
a sede de lugar.

Tenho-te num segredo
que partilhei ao mundo inteiro.
Explico-te a manobra:
Escrevi na parede do céu
o teu corpo em nuvem
arrastando-te sobre os azuis,
.............................VELOZ!
formavas-te
ora pássaro,
ora castelo,
ora abstracta figura,
filosofia do nada,
vinho sem copo,
constelações de corpos,
compondo as estrelas,
substituindo as estrelas,
renovando os nomes das estrelas:
Capricornius lucidus,
Corpis burlescos,
Travessias infinitus.

Este poema tem uma música
e esta música tem-te a ti.
Somos agora os três:
O ramo - o eu
A folha - o tu
A ave - a música
Espreitamos por esta janela
que espreita o
melhor de ti-mim-ti-mim.
És bonito quando (en)cantas
a ternura que me despe.
Nestes mo(vi)mentos,
cultivo novamente o jardim.
São frágeis as flores,
não pises,não negues.
Deixa que o jardim se alargue,
quanta força inútil existe numa morte breve?

Depois trataremos por tu
o coração,
o teu, mais alto,
avistará as fronteiras,
o meu, mais baixo,
avistará o canto dos teus olhos.

Autoplastia marcada,
sempre que dilacerarmos
o malmequer do jardim.
Nenhuma Primavera será demasiada
para que te chegues
de malas e cotovelos
às pétalas dos lençóis.

Teremos tempo
para contar do que vimos,
do que vemos.
Abres o livro?

Conta-me de novo,
pela primeira vez,
em novo,
a história:

Era uma vez.....

19.4.09

FRIO (difícil dizê-lo em voz alta)

Poderia ser 57 de Agosto de 1923...
O tempo é uma existência cheia de improbabilidades.
Nos ecos escutam-se
orações repetidas de tédio
e há quem caminhe pelo vício
de não se imaginar em amor confinado
ao luto de ser apenas dois.

Inventei-me num vestido
compilado em livro.
Na página 1 lia-se exacatamente a mesma coisa
do que na página 45.
Repetia-se o escrito na página 97
e de tanto leres as mesmas fotografias,
pousaste o livro.
De seguida,
pousei-me também num livro
e numa atitude de bucólica esquizofrenia,
inventei paisagem numa noite mais longa
do que eu.

Devoraste o tecido
para que a minha nudez te surpreendesse,
ou então foi só o indistinto desejo :
pousar corpo como quem pousa cansadas asas,


Retalhos de ave
davam forma às nuvens,
Quando choveu o desepero esvoaçou-se na água.

Se não fores capaz
de escutar
o enorme edificio de silencio
onde assentei as casas e os dedos,
revira de novo o meu corpo,
aponta-me para sul.
O norte,
constataram as nossas sedes diluidas numa só,
é uma estratégia pérfida
e a nostalgia é a acidez do coração.

Deixa que os meus cabelos recuperem a cor
do incêndio,
corpo queimado
a contraluz
num papel de parede colado
por improviso à porta de mim.

Sabe-me a romã este pêssego
que me chega fora de estação.
Não durmo mais do que cinco minutos
há muitos anos,
sinto uma dor que
me queima a intimidade.
Já não me revelo,
suspensa na fotografia por materializar.

No fundo, andava a buscar alguém
para amar,
alguém que fosse novo
e acreditasse na beleza dos pássaros.
mas como esqueci o código que sela a natureza
em castidade,
encontrei as sete magnólias transformadas em manequins
de gosto duvidoso.


Eram mil poemas e um músico sem guitarra.
De pásssaros,
percebo a distância.
Asa, casa,
derrubo a primeira parede
onde escrevera o teu nome
a tinta de água.

Aumenta o volume da música.
dança mais uma vez,
desliga o fluxo
que te leva nas avenidas do sangue alheio,
Vamos começar pelo lado prodigioso
do riso,
ouvir em repeat o tema
que cobre de amor a pele.

A água seca a cor
inebriando de espectros luminosos
a tua palidez.
visto a milimétrica distância
tens a aparencia de um anjo
derrubado em jogo de matraquilhos.

Estende de novo o tabuleiro,
joguemos o corpo a dinheiro,
ou a qualquer coisa de fútil
que não faça poemas quando se ausenta,

cansa-me esta tardia melancolia,
a poesia serve-se fria?
(...)

15.4.09

5. Requiem aeternam dona eis

- Porque partiste?


- Porque a casa estava vazia.


Paul Célan





passaram muitos poemas


numa tecla só,


esquecer-te valeu-me


mais de vinte tabernas,


copos de vinho doente,


amantes como remédios de ocasião.


Eu despejei-te inteiro


no meu sangue.


quando bebias de mim,


atordoado e confundido,


prometias-me a eternidade.


Renovamos a casa,


para que coubesse


O teu sabor, sabe-me a mim...





eu comprava-te ouro


para dourar-te o desespero,


podemos ser um,


ou ser finalmente nenhum?


passeios de moribundo


sob um rio de peixe morto.





pintei-te nos meus olhos,


um frasco de rímel





é certo que assitir às nascentes:


-do dia,


-da sede,


-do desejo


com o teu calor preso ao suor,


fazia imaginar-te eterno.


Um corpo amante de outro corpo,


adquire na realidade


o tamanho certo.








Nunca confiei nos teus braços


alongados aos meus.


Por onde atravessar-te,


se nunca me chegavas inteiro?


Eras um homem em ponte quebrada.





Sim,


a terra que avistávamos


na lonjura do outro lado,


prometia colheitas férteis,


de sol a sol.





Como me julgavas sempre


em parte incerta,


tropeçavas violentamente


no





joguei-te num casino,

mas tenho azar ao jogo,

perdi-te para dentro de ti.

Como te chegar ao silêncio?



Se me perguntares,

se estou feliz,

respondo-te a sorrir

que não,

para que o teu dia empov

Tempo preciso . 1:41 .

Pára a música.

Espera.
Ouve:
1:41
Um minuto
e quarenta e um segundos de tempo cronometrado,
e só agora começo a falar-te.
Este tempo em precisão,
elegeu-se belo,
e é um tempo certo:
1:41
Podemos escutá-lo sem que desapareça,
neste tempo não consta o que dista o universo.
É um fragmento sonoro
atirado ao cosmos,
superfície plana e horizontal.
As músicas têm partes mortas.
Faço a selecção do vivo,
a partir do compasso cardíaco.
O que fica da melodia
conta-se em tempo e cabe num punhado de ouvido.
O reduto final sou eu.
Ela, por exemplo,
não gostava de música.
Tinha um raro vício:
repetir Lhasa.
Depois a música era outra,
porque quando olhava os livros
abria-se em pautas,
mirando-se -mirando-OS-
nesse desfile de almas.
Compunha-se em vozes:
esse coro gritava-lhe as entranhas.

Dizia-me, por exemplo:
Hoje não consegui dormir,
al berto não se calava,
por isso adocicamos a noite,
enquanto pintávamos a parede em azul visível.
Como não me cabia dentro,
derramei-me inteira ao delírio.
Seguras-me à chegada?

Ela lia como quem canta,
que falta lhe faria a música?

É nesta parte que te digo
do silêncio.
Aprendi-lhe a forma,
ao ver como ela morria
cantando-se em recortes
respirando ar dos livros.
Repetindo.
Repetindo.
Tudo igual.
Nada igual.

1:41,
é o tempo preciso onde as extremidades se encontram.
eu,
ela,
a parede azul de Sines em branco,
o comboio por onde desfilam estas
e outras paisagens.

Sabias que morri durante
a noite?
Velaram por mim os insectos
e as pestanas,
depois havia um filme de um rapaz que lía.
De tanto ler
transformou-se num mito
e nunca mais falou de si.
Quando se nomeava,
visitavam-lhe as figuras evocadas
nas leituras.
De resto o filme era inútil,
não fosse uma mulher amarga
que me fazia lembrar cetim em pele enrugada.

Enchi a mala de viagem,
não estranhes se te parecer um envelope.
Afinal,
cabe-me a vida numa carta.
Rasga as folhas finais,
e cola as partes dispersas
onde te apeteça estar,
seja terra de vida
ou terra de morte.
Saberás melhor de mim assim,
em retalhos,
colada por aí.
Que não te importem as palavras cortadas
ou sem leitura.
Que não te chateie o disco riscado,
pousado em todo o lado,
girando-se aleatóriamente.

1:41,
1:41,
1:41,
é o tempo preciso,
onde no meio do coração aberto,
construo a casa,
a morada,
o abrigo.

Estarei lá.

É um aviso para esqueceres que existo.

14.4.09

Um poema em tamanho de noite . Em púrpura o teu corpo arde.


quando escrevias convocavas a lua.

para que nada faltasse
afiavas a lâmina,
marcando a noite funda
na tua boca.
escrevias demasiado
e um poema falava-se,
autónomo de ti.
Ontem, li-te num poema.
Chamavas-te António:
..."sou a vítima, o resultado
de uma maneira de inclinar os ombros,
quero dizer a sombra do teu silêncio"...
Era desse trapézio sem rede
que atiravas precipicios
em formas escritas.
Parceiros tinhas mais de mil,
cada um amante,
um amor ,
um avesso.
Era noite
e era um enigma.
Ela surgia-te no enredo,
o corpo era real e intocável.
por isso,
seguraste-lhe a insegura anca
tornaste-lhe frágil a tez
para que a pudesses ler nos contrários.

Rasgaste a saia da mulher que te passava na rua,
quero-te nua, quero -te inteira,
quero-te minha no espaço de um poema.
...
a mulher fugiu-te,
porque te preferia sólido,
quente,
não vestido nesse corpo frio
onde escrevias poesia,
como quem corta a pele,
na ilusão de revelar o vazio.

depois,
sem mulher
e com uma saia de ausência
pousada na cadeira vermelha,
escreveste outro poema.
a sala cheirava a incenso,
era insuportável e encantatório.
o poema atravessara-se na mesa,
era urgente escrevê-lo.

Agarravas, frenético, a matéria dispersa
e num acto cirúrgico
dissecavas metáforas.
é engraçado pensar que antes,
muito antes
de veres a mulher nua,
já lhe conhecias
a curva do desespero,
a cintura indefinida,
as unhas incertas,
sem verniz
e sem cuidado.

Escreveste o poema inteiro,
durou-te uma garrafa
e alguma tinta.
Ao nascer do dia
enviaste uma carta para mil moradas.
Eram mil mulheres
no teu poema.
Liam-no.
Comoviam-se.
Incomodavam-se.
Eram mil mulheres
e o poema.
vestiram-no como quem veste uma saia,
taparam a nudez
para sair no dia.
E o poema estava em cada uma,
e agora estavam inteiramente nuas,
mas ninguém reparava na subtil diferença
de ver um corpo aberto no espaço de um poema.

E dentro das mil mulheres,
o seu silêncio revelado pensava-se
em aflição,
tapando com a mão
o coração escancarado nos poros
do teu poema.

13.4.09

6. simples e duas vozes

onde estás?

debaixo da tua pele

onde te guardas?

nas ruas incertas.

a que horas chegaste na noite passada?

não me lembro de ter voltado.

não te vi sair...

saí devagarinho...

porque não falaste da ausencia.

não cheguei a partir.

disseste que


10.4.09

White Chalk. PJ Harvey canta-se no vaso onde descreveste a arquitectura da tua casa


No tempo em que falavas de vasos
e de flores que se emprestavam temporariamente aos vasos,
eu segurava em pano de fundo
um bilhete escrito na noite em que te conheci.
Nesse tempo a luz era escura e incandescente,
com qualquer coisa se aquecia a poesia.
Tu dançavas-te por ali,
o teu casaco era de um preto transparente
que te comia a pele.

Nesse dia fizémos esboços de poemas
que mais tarde bebemos em copos de vinho.
Tu dissertavas sobre luas e filosofia,
perdias o fio,
perdias o fim.
Voltávamos a falar.
Volta a falar-me - pedia-te,
mas nada se ouvia,
nem a nossa voz cruzada,
nem o rio onde o tempo se fundia
e regavamos a infância
na esperança que ela nos crescesse outra vez.
Saberás tu quantas coisas ouvi nesse não ouvir?

FOI UMA NOITE COMO UMA MARCA DE SOL.
Depois nunca mais desapareceste de te encontrar
e esse rio onde nos mergulhamos
correu-nos para as margens,
invadindo o ritual dos dias.
Nunca mais fizemos o mesmo caminho
para regressar a casa
Eram sete dias,
às vezes trinta e tu nunca chegavas a ti,
Alterava-se a morfologia do chão,
porque ora pedra ora asa,
derramavamo-nos ao destino,
que é uma coisa que não se vê
quando se é livre.
Estávamos juntas-sozinhas perante o perigo.

Na primeira noite em que te vi
os cabelos tocavam-te a raíz
de ponta a ponta iluminada,
fumavas-te em cigarros,
uns de nicotina,
outros de papel.
Mas havia cigarros que te fumavam
porque viciados de ti.
Tu deixavas-te dissipar em fumo
e era difícil encontrar-te entre as sombras
e os precipicios.

Nessa noite ficamos a ler poemas
e a ver quem arriscava mais sangue para atravessar a ponte.
Já nessa altura brincávamos com o abismo,
como quem sabe que o abismo também está dentro
em desatino.
Dizias-me:
uma árvore não cabe num vaso,
e no entanto,
ontem,
semeei-me num vaso,
reguei-me.
Dei de comer à roupa lavada
e dormi com um corpo quente de termoventilador.
Tenho a vida cheia de objectos,
a casa já não me cabe nesta tralha.
Vou queimar tudo
antes da viagem.
Será que a casa ficará vazia?
Tu sempre disseste que o teu silêncio
é barulhento e ocupa espaço.
Eu digo-te:
é um poeta que te vive
no sangue,
mas nada disto é definitivo.

Envelhece-me o corpo - cantavas.
Nunca te vi envelhecer - respondia-te.
Desde que te vejo de perto,
só envelheceste uma vez ,
mas era demasiado noite
para poder falar-te com precisão dos teus dedos envelhecidos.
Depois vimos um filme
ou deu-nos para o cinema
e andamos pela rua a fingir-nos actores ou actrizes,
tanto nos fazia.
Ainda tenho nos olhos
a cicatriz desse dia.
...disse-te alguma vez que o sangue esfria?
Deste lado do sol o corpo está predisposto à nudez.
Se houver problemas chamo o poeta.
Ele dirá dos vasos e das flores.
Ele dirá do que te viu
e como te chamavas no Verão passado
quando nascemos do mesmo vinho.
Ele dirá que mais vale andar nu
do que em má companhia.
Tu rirás,
dirás para me deixar nua.
Mais tarde quando chegares,
conto-te a última aventura.

8.4.09

7.

este poema começou

por ser teu.



Era assim que se falava de ti,

eu explico-te,

repara:

Não são os poemas, é o poeta. É o poeta que interessa

4.4.09

Água . Altamente biográfico, sob influência da chuva: Midnight Blue

Agora chove.
Água de chuva cobre o corpo.
São litros de corpo diluído..
Chove-me no centro do sangue.
Vi-te chover
e não consigo respirar,
que é como quem te diz:
quando te ausentas para o país triste foge-me o sono.
atormenta-se o piano,
o poema envelhece.
Está frio dentro de mim.
Está húmida a alma,
bate-se um compasso de granizo dentro
(É só o meu coração a bater...
É só o meu coração a tremer...)

Penso,
reflicto depois de ter escrito,
faço a viagem no meu próprio poema:
Primavera, Verão, Outono, Inverno,e...
Reescrevendo-me,
escrevo-te o que vejo:
Foi o coração que me ensinou.
Foi o coração que me despertou.
O poema estava errado.
Ele - o coração- caminhou sozinho durante a última década.
Passaram só dois dias - digo-te.
Não me acreditas.
Tu contas tempo com o coração
e o coração tem gomos diferentes.
Tu compuseste um tema
que me cantava na jornada,
que jorrava a chuva
por qualquer parte onde se tocava.
Depois secaste
e a chuva nunca teve tanto peso.
Eu queria corrigir...
Eu queria corrigir o poema.
Lê-me agora:
Enganei-me quando escrevi
que se escreve sem olhar.
Existem olhos dentro,
olhos fora,
não ver é uma forma de ver.
ver mais fundo é uma forma de REver
- repetir o ver-
dobrar, triplicar, multiplicar o ver.
Uma bola de espelhos oculares
apontando infinitas dimensões.

Este poema chove
e este poema é para ti.

Queria dizer-te:
Se tu me acabares
o céu veste-se de cinza.
a cinza é triste.
a cinza é de árvore que ardeu.
a cinza é de corpo que morreu.

Li não sei onde:
Não me morras..
Agora a frase despertou,
porque queria ser-te dita.
A função de certas frases,
a função de certas músicas é existirem
para se guardarem.
Ocupam arquivos antiquíssimos do esqueleto,
passam séculos sem que ninguém saiba delas,
ou por onde se caminham.
ou por onde se respiram;
depois,
porque chove
ou porque faz sol
a frase regressa.
As frases são climatéricas.
O meu corpo é climatérico.
O meu corpo tem frio
e está calor nesta esfera.
O teu corpo é climatérico?
Depois será Primavera,
li numa carta que me chegou.
Na Primavera há pássaros
e os pássaros são feitos de sol.
Depois,
na estação da luz,
dançaremos.
A parede premedita um baile.
Será azul.
Blue.
Blue rima com triste.
Blue rima com azul.

Não fiques triste.

3.4.09

8.

O plano era este:



pegar fundo na caneta,

dissecar pormenores.



O plano era este,

e era um plano morto

e era um plano vivo.



Era um plano

que às vezes ficava calado de angústia,

como quando se fala

para uma multidão

e a voz se apaga,

mesmo cheia.



Era um plano infantil

mas exterm

1.4.09

Pierrot le fou. Godard visita a casa. 1965. 2009

video

A Partir dos Equinócios de al berto . Sombra e Luz. Gomos de Laranja.


Intro:
Partem-se os equinócios,
a duração em poema, de Peter Handke,
ressalta na planície.
O poeta é meu guru, tudo me faltará.
O Equinócio:
NOTA 3:A DURAÇÃO DE UM EQUINÓCIO:
-Ocorre excepcionalmente, duas vezes, em cada ano.
-Dia e noite ocupam o mesmo tempo de vida.
-Uma laranja: 24 gomos.
12 gomos de dia.
12 gomos de noite.
Pós-Equinócio ou Pós e Equinócio:
Agora que os dias são laranjas irregulares,
o relógio dança mais.
Houve um dia que se esqueceu de caminhar,
e ficou a dançar
durante mais de 45 gomos de tempo.
Na duração da laranja diurna
os pássaros retornaram ao arco-íris
Foi um espectáculo memorável:
o reinado da luz.
Depois o estado dos pássaros:
uns cansaram-se,
outros cegaram.
A Explicação:
A luz quando aponta o meio-dia
fere os olhos se vista de frente.
Olhos de pássaro ou olhos de gente, pouco importa.
Houve pássaros que depois de (se) repetirem a (na) luz
nunca mais puderam vê-la.
"Dias mais tarde recordo agora"...
Seguiram-se 38 gomos de tempo nocturno,
as cavernas escavaram-se efémeras,
todas de vidro vestidas,
reflectindo-se em sombras.
Pequenas velas regavam o chão,
houve quem se queimasse de propósito,
só para poder falar disso mais tarde,
num poema ou num serão.
Ter o que dizer era uma coisa vulgar nas
laranjas de tempo - noite ou dia-
que corriam.
Os olhos e a noite acostumaram-se.
Apagavam o sol dos desenhos,
repetidamente.
Nasceram rostos sem olhos...
foi hediondo!
Os amantes entristeceram
(Eram tão belos os teus olhos, amor...)
Alguns poetas deixaram mesmo de escrever,
como só escreviam acerca do que viam,
acabou-se-lhes a matéria.
Estava escuro,
os gatos ficaram todos pardos
e as pessoas também.
Eu como laranjas e gomos.
Eu não conto os gomos.
No entanto,
atendendo à diversidade que se me coabita,
explico:
a vizinha do lado de dentro do meu coração
não se importava de viver em equinócio permanentemente.
É bom para as colheitas selectivas!- pensa ela.
O meu pé direito caminha melhor quando há luz,
por isso está atento, só compra laranjas de gomos cor de sol.
A minha mão inspira-se de ar sob a noite profunda,
respira melhor quando os gomos se vestem de escuro.
O meu nariz cheira sempre o mesmo, noite ou dia,
mas quando escreve,
escreve sempre diferente.

Agora leio,
já não escrevo,
porque este poema perdeu-se nos gomos de tempo,
está indeciso:
noite-dia,
sombra-luz.
Fica-se pela citação em Yin e Yang:
- Um excesso de escuridão afecta a mente.
- Um excesso de luz afecta os sentimentos.
- Um excesso de vento provoca doenças nos membros;
- Um excesso de chuva provoca doenças no estômago;

... seria o equinócio a solução?

31.3.09

Escreve na parede do meu peito . (ESTADO: líquido)

"As coisas, por exemplo, começavam todas pelo princípio e acabavam no final. Por isso, nesse tempo, para ele tinha sido uma grande surpresa, e nunca mais as esquecera, umas declarações do cineasta Godard onde dizia que gostava de entrar nas salas de cinema sem saber quando é que o filme tinha começado, entrar ao acaso em qualquer sequência, e ir-se embora antes do filme ter terminado. Seguramente, Godard não acreditava nos argumentos. E possivelmente tinha razão. Não era nada claro que qualquer fragmento da nossa vida fosse precisamente uma história fechada, com um argumento, com princípio e com fim."

Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento (Teorema, 2007)

29.3.09

BANG BANG

Bom-dia, meu amor.

Vim dizer-te qua a rua ardeu
e o avô fez anos de morto.
Desapareceram-lhe os poros,
e já mal se lhe guarda o esqueleto.
A terra comeu-o,
mas um lírico diz-me que o corpo morto
germinou em jardim.

De que me valem essas flores?

Na aldeia ninguém se fala,
o corpo cansa-se de espreguiçar murmúrios,
e depois com as ruas queimadas,
os pés ardem nos caminhos.

Na aldeia não se fala de pés,
mas era através dos pés que se falava.
Havia algo de encantatório nessa conversa que caminhava.
Que se caminhava.
Que se encaminhava.
Agora,
aninhados os pés em silêncio,
tornou-se difícil explorar outras geografias falantes do corpo,
do copo.

Enche-me o copo de sol.

Foi por isso que esta carta
foi nascendo até se gritar.
Eu estava cansada
e parti a guitarra
contra o espelho.
A melodia reflectida,
a melodia despedaçada,
não imaginas como escureci.

Desde que a aldeia está calada
já não se sonha
a não ser que se boceje.
mas ninguém entende de bocas,
ninguém beija essa estrutura de carne feita para amar.

Meu amor,
com a guitarra partida
e os pés calados,
custa-me a chuva
que se cai em cinzento.
A água que me caíu dentro,
era devassa,
arrastou um livro
que tinha ilustrações de uma ilha
onde a boca falava,
onde a boca reinava.


Nada disto esteve para se dizer,
meu amor,
os dias são apenas dias,
quando o pensamento se cansa de se pensar.

Hoje andei a tarde inteira a correr atrás de um poema,
comprei-o por um valor que ele não tinha.
Era um poema de um homem que trazia outro homem dentro.
Quando segurei o poema na mão,
a mão escureceu.
Lavei-a com tinta,
voltou à cor que antes tinha.
Voltarei a ter a cor que tinha?
Esse poema caminhava arrastado
num saco verde
e o pai era um homem magro
que não era bom contador de histórias,
mas de notas sabia,
escrevia-as por todo o lado.
O homem e o seu duplo,
transmutados em estátua,
tinham por companhia uma caravela azul e branca.
Era um bocado feia,
ningúem a queria,
por isso comprei-a
e nunca mais a ofereci.
Somos muitos,
e quando te escrevo
confunde-me a estátua,
arrepiam-se as palavras caladas dos pés,
o esqueleto range no jardim.
a caravela pinta o seu rosto de convés
e transforma-se diva
por cem dias.
É desta aldeia em desatino,
em que de um louco se faz um menino,
que te escrevo.
Estou bem,
os dedos permanecem altos
e apontam nortes como bússolas.
Sossego agora.
Guarda uma fatia do teu silêncio
para te engolir de perto.
Volto no Verão.

Porque é um acto de amor. nota confessionária onde o poema reina devagar





Em casa de livros, quem tem amor singra, se não pela venda, pela criação de um país de infinitudes. Esta casa tinha livros que ocupavam tudo. As paredes eram um livro imenso. Passeavam-se por lá fantasmas idos de escritores nos seus escritos, nas manchas negras que habitam o univeros branco... essa casa metafórica... essa casa em metamorfose que é um livro a acontecer-se.

ESTA CASA É MUITO BELA.

Hoje visitei-a nas imagens.
Eu queria desta casa uma porta aberta, uma sesta no sótão do seu abrigo.
Que assim seja, que assim se leia, pelas ordens que regulam o despojamento.

(Nick Cave em banda sonora aleatória canta no momento da escrita).



23.3.09

LUME


Deixo que o LUME segure a minha mão.

O interior da mão -
imagino,
imaginamos-
é de nuvem que não te chove:
segura-te.

Escrevi-te um livro inteiro e está todo em branco.

Leio-to (lendo-te) para que entendas como é barulhento o silêncio dessas páginas.

Assim,
suspenso no tecto do coração
fotografas a rua,
eu não estou lá,
mas ouço ao longe o soletrar
de uns passos.
Reparo:
a vizinha é alta e esguia,
e ateia o fogo para limpar os móveis do jardim.
A noite, essa, pode esfriar no prato,
porque te distrais a contar
o tamanho de um ovo
e eu penso que é belo ver
como trabalham as tuas mãos.
Dizes que o labor
é precioso,
isso espanta-me,
desperta-me o improviso:
canto alto na rua
para que notes que me comovo
quando te expandes em minunciosas tarefas.

O lume está agora dentro
de casa,
a montanha diáfana enche-se de pássaros
que nomeias pela ordem das visões.
Abres o sol em gomos,
comemos o sol
e é bom.
Esse incêndio de luz
incandesce no sono.

Eu nunca soube se uma aldeia se compra,
ou se se pede de empréstimo
às criaturas e aos montes.
Mas sei que buscaria terra
e plantaria poemas nos vasos,
para que chegasses mais cedo
aos braços que já te moldaram mil vezes.

É noite agora,
as mãos pintam-te no rosto uma palavra
cheia como uma lua.
De manhã,
seremos três,
tu,
eu
e a voz citando al berto:
"quando acordares, e abrires a janela"...

9

para que os dias possam cantar,

espremias estrelas no asfalto.

21.3.09

10. POEMA (realmente) EM DOIS TEMPOS. UM ERA MANHÃ O OUTRO ERA DE NOITE (mas este poema é longo, procura-se terceiro)

Nesse dia,


enquanto a noite era o avesso do dia distante,


eu tinha


-finalmente-


percebido:






Uma história é o que nos pousa nos ombros.


é o que nos fica,


queda-se, hesitante, depois segura.





Mas como as histórias nem sempre têm voz,dedica-se a alma


,que é uma porção do ser, dedicada a causas mínimas de elevadas dimensões)


a descoser as linhas que atravessam



as redes.
São de nevoeiro e ardem.





Eu comecei este poema há mil anos,


eras tu ainda pequeno.


Visto à luz de palma da mão,


assentando a atenção nas tentativas de vislumbre,


confundia-te com uma linha


- dessas que traçam itinerários de riso e de perda.





Cosia-te então,


primeiro à rua,


para que os pés soubessem o caminho,


depois ao céu,


para que os olhos se abrissem em vôo.


(não acredito em ASAS. Faltam-lhes vocação para se humanizarem.


não consigo fazer nada com elas para além da prática de simulacros)

18.3.09

11.

No dia em que te fotografei pela

última vez,

escondi-te o rosto

atrás de mim.



Agora ando com a tua sombra,

que é uma cara sem pernas,

preciso carregá-la nos ombros,

de um lado para o outro lado da rua,

e ás vezes são pesadas as linhas do

teu rosto,

nas linhas da rua

17.3.09

PEDRAS para sentar OU PEDRAS por assentar

Este é o banco
onde podes sentar as
pedras.

Mais tarde, quando voltares a
passar pelo banco,
onde descansam as pedras
adormecidas de sol,
atira-as para longe,
tenta acertar no alvo!
Há quem pense que é uma mulher bonita,
mas não acredites.

Ela não acredita.

Podes escrever-lhe um poema sobre pedras
ou sobre lagos
ou sobre bacias que guardam lagos com pedras.
Ela preferirá sempre o poema que não escreveste.

Podes passar-lhe a mão nas pernas e nos pêlos,
podes ver como arranham,
podes ver como doem.
Não são suaves como sonhaste que seriam os pêlos da
mulher amada,
mas são pêlos e são os dela.

Esta mulher pensa que a estética
se resume quase sempre a um corpo que baile bem.
prefere bronzear livros ao sol,
que é como quem diz deixar os braços fora
da janela do corpo,
e deixá-los avançar,
seguros,
satisfeitos,
num baile sem asas.

Das pedras, a mulher,
sabe de cor (e pela cor) o sabor
...e nunca foi o de sopa.
Fossem deliciosas as pedras
e bordaria com elas um coral.

As pedras são amargas.
As pedras são pesadas,
principalmente se carregadas nos bolsos
de um casaco que não se despe.
(e esse, tenho ouvido,
resguarda-se debaixo da pele,
longe dos toques
e das mãos)

16.3.09

VINIL VIL, VIL VINIL

a página acendeu-se.
este seria o poema certo para te ler,
mas...

não estou aqui para ler poesia,

fechou-se o cardápio,
volta quando a noite cair
do cimo de si onde se sustenta,
espalhada no chão,
confusa de estrelas e astros
assustados pela enorme queda
(chora mais quem cai primeiro,
é a regra do cosmos,
para que o último escute esse eco.
... não é uma questão de ego...
é uma questão de eco-eco-eco-ec-e-...)

Se preferes a lua cheia porque não
compras uma somente para ti?
Tu e a tua-lua-tua-lua.

Não me olhes com cara de mau,
sabes que não é assim que te vejo,
o reflexo é sempre o do outro
e esse já sabes, comove-me
provoca-me inquietude,
deixa-me os dedos calados-colados.
Deixa-me os dedos parados.

Enquanto o teu nome couber inteiro
no vinil antigo
e os Velvet disserem de ti
o que tu apagas,
este dia continuará a ter qualquer coisa de teu
-não sei se a luz, se o cheiro, se a impressão de te ver entre outros-
ou tu, aqui,
neste lugar arredondado
onde guardo mundo
em quadros sem telas.

O vinil é um tipo de plástico muito delicado e qualquer arranhão pode comprometer a qualidade sonora. Os discos precisam constantemente ser limpos e estar sempre livres de poeira, ser guardados sempre na posição vertical e dentro de sua capa e envelope de proteção. A poeira é o pior inimigo do vinil pois funciona como um abrasivo, danificando tanto o disco como a agulha.

(in Wikipédia)

15.3.09

EQUINÓCIO com demasiados parêntesis


De cinzento a cinzento penso a parede.

(a parede é uma matéria ingrata
quando se fala baixinho,
primeiro, gastam-se as palavras nos tijolos,
depois gasta-se a cor com o tempo que as palavras levam
a desenvencilhar tijolos e letras,
por fim, gastas pelo tempo,
as palavras desistem,
comem definitivamente a cor
e o silêncio tem o seu supremo reinado).

O teu silêncio quebra o corpo da flor
(passara horas a desenhá-la no jardim)
O teu silêncio mutila o lado risonho onde navega o segredo filosofal

O poema visto do avesso transformou-se noutra estrutura...

Do fim para o pricípio as letras nunca mais se encontraram,
por isso este poema pode ser mau,
por isso este poema deve ser mau:
é como um corpo que não se entende,
pernas para o ar,
coração em vez de rins,
água inquinada como conversa que se matuta e não se diz.

Nem riso, nem rizomas,
fazem parte deste prato que serves com lágrimas sem sal.
(trago apressada o saleiro,
encho-te os olhos de sal,
não para salgar lágrimas
-eu sei que é uma perda de tempo salgar lágrimas-
mas para trazer viva a memória do primeiro
mar,
do primeiro sorriso
e do teu corpo horizontal a ocupar toda a visão da planície)

O esforço deve ser nenhum
quando a alma é empática,
(sussurra um sábio velho, um sábio chato, um chato velho!)
Mas na verdade,
eu penso que essa filosofia não me cabe dentro da cabeça,
escrevo-a de cor, mas sem salteados.
Não cabe o sapato nesse pé
tropeça, vacila,
é um sapato vazio caído na rua,
(fico triste quando vejo sapatos sem dono,
perdidos na rua.
Fazem lembrar gente morta).

Por fim,
dizes-me para colocar o saleiro num lugar onde eu não o veja,
um mar ido não deve ser evocado com estratégias de diversão.
Agora tudo sério, dizes,
Agora é a sério, dizes,
esfregando as mãos, confiante.

A tinta certa pinta a parede cor-de-laranja que me dedicaras,
já não tem laranjas, nem flores brancas em período de gestação,
é uma parede cinzenta
onde peregrina a melancolia que sabe de cor
o sabor do sal.

(Se este poema tivesse uma etiqueta seria: "EQUINÓCIO",
mas não sei porquê... sabe-me bem esse nome...
Esse nome cabe no sabor deste poema)

NOCTURNO. Nuno Júdice

Nocturno . Nuno Júdice

Sair de casa, digo, ir ao teu
encontro e dizer-te aquilo que
noutro tempo nunca ousei dizer-te: "O amor..."
Ou então, saberás tu que o amor nem sempre
pode ser dito como se diz que vai chover,
ou que o cansaço da vida é um sentimento incómodo,
e até frequente, nos dias que correm?
Mas os teus olhos talvez
me dêem um sinal: como se para além deles
se abrisse um descampado, o deserto inóspito
das sensações. "Voltarei a ver-te?". O essencial
nunca está nas respostas,
que dizem a verdade ou o seu contrário. São os teus olhos que me interessam;
um murmúrio perto de mim, sobre as conversas e a músca.
Porque aquilo que , de súbito, descubro
em ti é a voz com que me falas, e que traz
consigo o eco de outro tempo. Não te
respondo, então- onde iria encontrar,
também eu, essa voz antiga de que
me esqueci nalgum canto do passado? Com
que falsa entoação, jogo de actor esquecido
das deixas, máscara de simuladas
sinceridades, te diria: "Amo-te"
(Mas o amor nada tem a ver com as palavras;
nem a breve pressão dos dedos no corpo
pode traduzir o que perdi, algures,
ao ver que te afastavas por entre
as árvores e os anos.)

11.3.09

Dizias.

talvez a lua se ausente dos reflexos do mar, dizias.
não procures a lua onde ela não está, dizias.
a lua morreu, dizias.

eu parava, escutando-te
uma atenção latente debaixo das pálpebras, porque de ti interessavam-me,
primeiro: os olhos (reliquiário de histórias)
segundo (segundo a segundo, minutos muitos): a pele (película transparente de anfíbio)
terceiro: as algemas (várias, rodeando cada um dos teus braços, enroscados no centro do coração).

Depois dizia-te: a paisagem que inventei tem a banda sonora do Paris Texas e os anjos saltaram de filme em filme e pararam no parapeito deste deserto.
Consegues vê-los?
Pretos e brancos, dançam num ritual simples chamado abraço.

A lua morreu, dizias.
A noite não está onde julga estar, dizias.
Não se chega a um lugar onde nunca se viveu, dizias.

Já era tarde para avisos...

Eu rascunhara luas no céu e os anjos vestiam agora jaquetas verde-alface,
calçavam sapatos prateados
a a cor tomava conta de um grupo de rãs que em vez de coaxar, cantavam o alfabeto e contavam sementes num frasco de vidro muito fundo, muito vivo.

A lua morreu, dizias.
Guarda o envelope e não envies a carta, dizias.
Não voltes a ligar, dizias.
Nunca entendi a tua voz, dizias.

Eu fingindo não ouvir,
corria o deserto, que agora era um rio onde podiamos mergulhar,
mas sem truques de sereia era difícil poder levar-te.
Preferias terra quente,
desertos de areia,
anjos pretos e brancos,
rãs a coaxar.

Tudo no lugar
(Menos a lua que não é tua, não é minha... é de quem a apanhar)

2.3.09

Agora vai ser simples. Antonio Franco Alexandre. FOGE BANDIDO. Manel Cruz

Agora vai ser assim: nunca mais te verei.
Este facto simples, que todos me dizem ser simples, trivial,e humano,
como um destino orgânico e sensato,
Fica em mim como um muro imóvel,
um aspecto esquecidoe altivo de todas as coisas, de todas as palavras.
Sempre nos separaram as circunstâncias, e a essência mesma dos dias, quando entre a relva e a copa das árvores
me esquecia de pensar, e o ar passava
por mim antes de erguer os caules verdes e alimentar
a vida sem imagens da paisagem.
Marcávamos férias em meses diferentes.
O fim do ano, a páscoa, calhavam sempre
em outros dias. Tesouras surdas
rompiam o cordão dos telefones, e por engano
urgentes cartas atravessavam o planeta, apareciam
anos depois no arquivo municipal. E mais: a minha idade,a tua, não poderiam nunca encontrar se no mundo.
antónio franco alexandre
poemas assírio & alvim

there is a tree...

se eu fosse esse peixe verde, por onde as ondas espreitam os jardins e pudesse agarrar o teu corpo, de lés a lés azul, sem te ferir.

imersa nesta gramática de cores, os passos são lentos mas parecem velozes.
não ligues.
não interpretes.
eu cuido das tuas mãos sem rasgar com elas os meus diários visuais.

14.2.09

No sentido lógico da paisagem

É a terceira vez que agarro neste pedaço de tempo para te escrever.

A verdade é que li muito ("pela tarde e pela noite dentro" al berto), à procura dessa palavra que completasse estas desorganizadas matérias, que são vida e movimento.

A planície já te disse, é escassa e prende os olhos quando se escuta de trás para a frente.
Há quem prefira assim, seguindo a inversão dos lugares, mas eu queria explicar-te esta geografia sem invasões ou metáforas, num sentido linear, que ordena as cores pelas sua lógicas:
o verde nas árvores,
o azul no mar,
o vermelho no sangue.

Um coração deve ser contado pelos dedos:
um, dois, três, quatro.
Depois compor um tema e uma dança ou dormir ao luar.

LOVER'S DAY .tv on the radio.



7.2.09

corps nu

Estendido o corpo ao mar, todo o silêncio tem a espessura dos sonhos habitados.
Quebrados os sonhos, ficam dispersas quilhas de navio, como corações bizarros, despidos de cor.

Os pés caminham e são continentes dispersos no mundo,
como se o corpo pudesse simultânemente entregar-se ao mar e permancer em terra.

Assim cantam os desejos, mas nada do que essa parcela lírica semeia pode ser levado demasiado a sério.
Esse desejo pode cegar e entorpecer a pele.
Um corpo, precisa de corpo para se saber.

3.2.09

12.

As ondas entraram dentro dessa superfície iluminada, que é um coração mesmo quando apagado.

Os poetas abrigados no saco de viagem iluminam-se para leituras.

Se pudessem diriam em voz alta os longos relatos de alma, que foram sendo.

Discursos do tempo,que é como quem entrega a cabeça ao vento e fica a ver o céu sugar-lhe as imagens, transformando-as em mutáveis nuvens.



Este vento não pára.

Nem esta sobrevivência que é levar a

2.2.09

os vultos cantam ao serão


AQUI HÁ POUCA DIFERENÇA

NAS TEMPERATURAS EXTREMAS.
ruy cinatti

31.1.09

Céu aberto

Preparei-te esta cadeira que tem paisagens de mar à solta.
(sentados, conversaremos com as mãos,
numerando imagens velozes,
cultivando luzes no campo aberto da nudez)
Quando chegares,
escutando a velocidade dos teus passos,
escreverei no silêncio estas metáforas que te nomeiam entre os seres, como o AR,
como a melodia que engravida os dias de sol.

Vestirei o casaco vermelho manchado de coração,
pensarei no que estarás a pensar,
depois não pensarei
e atenta, escutarei o teu movimento de asas,
atravessando as ruas.

Trarás o teu corpo,
onde inscreves e corriges diariamente as estruturas do planeta,
lembrando uma criatura que o meu corpo, por sua vez,
reconheceu milen-AR.

E será um dia completo.

Fui ver as árvores.

tenho estas palavras,
onde cabe exactamente o teu coração.

30.1.09

Ténue







29.1.09

"Os meus dedos não se cansam de nomear-te" al berto

Sob criação lunar, a casa manifesta-se ao mundo

o discurso projectado pela paixão. herberto hélder .
entrar no coração como um braço vivo
OS MUSEUS IMAGINÁRIOS DE MALRAUX

o continente submerso. o navio de todos os amantes por onde rola a carruagem onde viajamos,
pintada de liberdade e poesia contigo a dormir sobre o meu peito . antónio maria lisboa
tu conhecerás o temor e transformarás a terra. maria gabrriela llansol

trazer aquilo que é anterior ao esquecimento . antónio ramos rosa

um reino tão fascinante que não tinha rei . gonçalo m. tavares


.


"Com a via láctea à volta do pescoço e os dois hemisférios nos olhos" . Blaise Cendrars


Minimal

Repara como esta estação empalideceu durante a noite.

27.1.09

...


26.1.09

"Chamo-te. Um murmúrio de luz, por instantes, coincide na ilusão de uma resposta" . Nuno Júdice

é tarde e os bolsos estão vazios.
Antes, quando observava o fundo dos bolsos avistava sempre ilhas ou sorrisos, mas hoje, os bolsos adormecem antes das minhas visões e a casa é um lugar que não existe.

disperso pinceladas num céu pela primeira vez antigo de escamas e nu de peixes.
queria segredar às visões do mundo que tenho tempo para amar cada um dos seus pormenores, ondas e barulhos, cinzentos e azuis.
queria dizer que confundo a epiderme com a textura das nuvens e que nunca foi difícil voar, que me está na vocação ser pássaro ou avião.
(NÃO DIGO!)

as ruas não esperam, traçam segredos de um lado ao outro do coração, e o movimento persiste, agitando os rostos à passagem do tempo. Depois de muito agitados, os rostos envelhecem, são comidos pelas imagens do próprio mundo. o amor cansa-se de escavar as suas próprias poções.

é noite, dorme agora.

22.1.09

SOL NASCENTE


20.1.09

AMOUR


17.1.09

Fiore de la Città


o mar pode ser muito longo ou não, dependendo do lado que o vês.


Hoje, por exemplo, estou dentro do mar, mas a sua linha horizontal acaba na minha mão direita, a última que tocou o teu rosto antes de partir.

Fiz a mala da viagem e trouxe dentro dos olhos dez retratos teus. Tenho-te olhado há muito tempo e ainda hoje, que o chão está quente de esperas, o fascínio mantém-se latente. Assim pulsa a terra: à velocidade dos teus sorrisos.


(Quando sair para a rua, deixarei um recado

nesta imaginária porta que separa os nossos quartos.

Será um recado longo, mas só o poderás ler, parado.

No silêncio.)

6.1.09

Devagarinho, como a chuva...


“a esta hora dorme dentro da cama a mulher que faria amor
se não estivesse sozinha.
Lento o homem despe-se, nu como a mulher distante,
e desce para o mar.”
césar pavese


Criavas mundos.
Era o teu ofício.

No dia 7333, de um ano impossível, numa varanda de estrelas sumidas eu iniciara-me no amor.

Chegaras.
No saco guardavas corações. Eu amava-os.
Dizias-me que todo o acto criador começa nas mãos, é dentro delas que se pensa.


um novo universo nascia, redentor de todas as tentativas de beleza.

E da luz fez-se a manhã
E da manhã bebeu-se o sumo
E do sumo nasceram muitos filhos, dando lugar ao corpo da imaginação.


DIGO-TE DEPOIS PARA QUE SAIBAS DE MIM:


NÃO SUPORTO COPOS DEMASIADO CHEIOS,


SALAS MUITO OCUPADAS,


VOZES AGUDAS E CORPOS QUE NÃO SAIBAM BAILAR.



ELA TENTAVA ORQUESTRAR O UNI-VERSO.

Agora que partiste
Agora que te partiste,
Encontrar-te é sempre inventar-te noutros.

VOU ESCREVER-TE ESTA CARTA LENTAMENTE.


Mário Henrique Leiria


Eu queria de ti as asas e a formosura.

A sede e a penumbra.



Nunca te disse (não houve tempo, como diria o Almada, ele que diz que só sabe do tempo quem não tem coração), mas nunca mais respirei da mesma forma. Interrompeste o livre curso da minha respiração e ritmos cardíacos. Cantar era agora uma condenação. Estava vulnerável à tempestade emocional, porque tu eras um menino banido das linhas de qualquer mão.



NÃO ME DEIXES MORRER! NÃO ME DEIXES MORRER!



DUAS SEREIAS ANDAM À CAÇA DE UM ANJO MUDO al berto.
Era a inscrição que ocupava o espaço areal/sideral.


Eu sabia que era de ti que falavam, por isso escondi-te num lugar seguro e nunca mais te encontrei.



(Dizias-me:
- Uma alma como a tua já não se encontra nestas terras.)


Digo-te:
Uma lua cheia é uma forma viva e perturbadora.


Escrever-te é ainda um acto de amor.

“Disseram-me um dia que as palavras existem para enganar os sentimentos.
Pode ser isso.
Pode ter sido isso a essência desta caminhada”


in Carne Torpe.


"E não terás mais do que seis minutos para me olhar.


É esse o tempo.


Porque cantar é pilhar uma parte pura do coração por deixá-lo todo à escuta.


As nossas vitimas são a nossa melhor parte."


Vasco Gato

Muitos anos depois de eu nascer, a tua face a atravessar galáxias.
(escreveu alguém, um dia, num caderno de viagem)


Vim devagarinho, com a chuva.

17.12.08

as casas

é nesta casa feita de frio e matinal geada, que o coração repousa. faz frio no mundo. faz frio no coração, mas nada disso rouba esplendor às cores (também frias) do fim do dia.
esta casa tem o tamanho da minha viagem e a passagem para muitas outras casas, todas cheias de portas, qual Alice no país de maravilhas e horrores.
esta casa agrada-me, porque as casas agradam-me. As casas são efémeras ou então peremenecem na memória ( e as efémeras também se guardam). Diz o Gonçalo Tavares que a memória é emocional. Concordo e aceno a cabeça afirmativamente, numa cumplicidade próxima que é afinal distante A memória quando chega, iluminando os olhos de imagens interiores, altera o espaço e o estado do coração dentro e por dentro de si. Como se aumentasse de peso, de estatura, de estrutura.
as casas guardam-se dentro e vivem por fora. (Eu penso que a memória entra pelos olhos. quem disse foi o Herberto Hélder)

3.12.08

Admirável mundo novo


Despe-te de verdades
Das grandes primeiro que das pequenas
Das tuas antes que de quaisquer outras
Abre uma cova e enterra-as
A teu lado
(…)
Mário Césariny

Fazia escuro, fazia luz, as praias rodeavam o silêncio(…) Mas não era o caos, era a caótica natureza da sua carne em marcha que, rodando mais uma vez sobre si mesma se aquietava (…) Não seria sonho ou delírio ou disfarce. Era a realidade absoluta.
Maria Gabriela Llansol


Tratava-se de descobrir um novo idioma na geografia dos afectos. Assaltar de rompante o coração, invadir as artérias como se rasgasse partes planeadas de vida.
(O sangue corre diferente. O corpo tem uma velocidade diferente. As mãos são diferentes.
Toco no meu rosto e noto-lhe linhas diferentes)

Situo-me no presente, mas parte do corpo paira, atmosférico, na memória dos lugares.
(Eu queria dizer-lhe que ficasse tempo suficiente para quebrar o cuidado que nos esconde uns dos outros, mas não digo. Ele é bonito quando esquece o vício que lhe esconde o brilho original.)

A ilha é um deserto ocupado e a antítese corresponde ao ritmo secreto da monótona e sempre nova paisagem.
Explicando (há no gerúndio um tempo em movimento, como disse a Llansol):
Casas que entram noutras casas, lugares como bonecas russas, olhos fundos, saídos da terra que é seca e quente.
Todo o fascínio das revelações.
Depois há um fonema que parece cantar e iguala os vivos aos mortos, os mortos aos vivos.

Assim, dispo o inútil casaco que cobre os meus ombros, mostro-te o coração que guarda cicatrizes, amores e acalentos. Mostro-te o poema para que não compreendas porque vou embora, quando falta ainda repousar.
Digo-te que ainda desconheço o tamanho dos meus braços ou quanta gente lhes cabe dentro. Um movimento, um movimento, um movimento para que eu prenda a vertigem à porta da rua e congele a sua ilusória sede.

Vim dizer-te que cheguei para ficar, mas parto amanhã.

30.11.08

DESLUMBRAMENTO.

12.10.08

DIZER LUZ

Porque ainda não sei contar esse tempo que dista o desejo de dizer, do acto de dizer,
é agora que preciso dizer-te:
PENSO EM TI.

é agora que digo:
NÃO HÁ FACTOS, NEM FACTORES.
HÁ NECESSIDADE DE COMUNICAR DENTRO DOS MOMENTOS QUE SÃO EXISTÊNCIAS EFÉMERAS E TRANSITÓRIAS.

Tu, comigo, nos dias cheios de partículas-partituras-modos-visões-claras-confusas e as PALAVRAS e as suas múltiplas formas.
Comunico-te para me comunicar e esvazio as imagens que me assolam velozmente.

Agora a LUZ.
Ainda a LUZ.
Sempre a LUZ.

1.10.08

Constróis-me um castelo?

Eu precisava cantar-te à porta e celebrar contigo o próximo aniversário.
Eu precisava inventar-te uma ilha, um motivo, uma esfinge, um destino.
Eu precisava dizer-te tantas coisas que não digo….

Ficou por desenhar


TENTEI DESENHAR-TE

NA PAREDE

DE TUA CASA.

QUERIA QUE TE LEMBRASSES

DE TI

ANTES DE PARTIRES.









24.9.08

Babe, I´m gonna leave you

Fotografia tomada de empréstimo ao belo "Foge, foge bandido" do Manel Cruz

E estou novamente só, contigo dentro,
enquanto rasgo Paris e derramo-me ao vento (que é um estado louco)

Porque a cama tornou-se demasiado grande
Falta-lhe corpo…
O teu.
O meu.
E as possibilidades dos corpos.

Os planos seriam diferentes se percorridos à velocidade do desejo…
Partes de mim cederam ao abandono,
Perderam os incêndios e a capacidade de se incendiarem.

Porque tu rasgaste o meu nome e sorriste e não soubeste e esqueceste.
Porque tu, meu caro amor, vais figurar nos cadernos da vida, como o inadequado escolhido que cabia no meu coração… e voou…

17.9.08

BE KIND . Devendra Banhart

Vinha dizer-te que já não estou aqui.

doce como algodão. One, two, three, four

Eu precisava de um pedaço de fio que ligasse o meu braço direito á asa do teu sorriso.
Eu sei que dito desta forma, parecerá improvável encontrar o fio, depois o braço e por fim a asa do sorriso.

Mas queria lembrar-te que tenho sede de impossiveis e deixei o relógio pousado na cadeira onde sentaste o pragmatismo (disfarçado de homem crescido, com as meias do avesso e uma franja que lhe cobre a doçura).

One, two, three, four
I'd like to sing to you if you'd like me to
I'd like to sing to you if you'd like me to
I'd like to sing, sing, sing, sing, sing to you
Alone
And I'd like to dance with you if you'd like me to
I'd like to dance with you if you'd like me to
I'd like to dance, dance, dance, dance, dance with you
Alone
Devendra Banhart . A ribbon

10.9.08

in your honor. FOO FIGHTERS

"Razor"
Wake up it's time
We need to find a better place to hide
Make up your mind
I need to know
I need to know tonight
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine
Patience my dear
We could spend a lifetime waiting here
Maybe this time
I hope I get the chance to say goodbye
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine
Day after day
Cutting after day
But anyway
Wake up it's time
We need to find a better place to hide
Make up your mind
I need to know I need to know tonight
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine

4.9.08

nunca te disse nada

era assim que eu gostava que compreendesses o fundo dos meus olhos.

absolutamente.

Para tais momentos de duração permite-me o poema usar um verbo especial: eles constelam-se . Peter Handke

Bater no tecto do céu e a partir daí escrever uma pauta. Não interessa se de sons ou de palavras. Trata-se de orquestrar o céu, descodificando-lhe primeiro o azul, depois a carne das nuvens.
Comer os frutos das estrelas, que sabem a noite, escrever um poema ou dois, relê-lo(s) e deitá-lo(s) fora. Sem marcas, como se o tempo fosse essa indiferente leveza.
Trata-se de quebrar a proporção, caprichosamente e depois reclamar a ordem, a organização, como se uma casa coubesse inteira numa respiração.
Não cabe. Nem casa, nem coração. Se atentos, poderemos sentir a expansão dos afectos, dos pensamentos nas ramificadas sedes do pensamento.
Depois de poema rasgado às costas, explorar apenas a superfície lunAR, sem desejo de intimidade. Paisagem apenas.
Without beauty, mon chér.
Assim, sem marcas, apenas a memória de ter tentado compor uma constelação nova (mas faltaram estrelas, pincéis, pianos e o cansaço provoca arritmia nas palavras de beleza. Assusta-as).

31.8.08

cinco sons

ele parecia feito de cristal e avançava discreto e grande, ocupando a noite e o pensamento.
ela olhava-o e, se pudesse, cantava-lha agora ao ouvido da pele e da tempestade, o amor...

24.8.08

como um ritmo

ontem não conseguia adormecer..
no meio da casa os teus pés ausentes ouviam-se,
ritmicamente..

a visitar...

http://www.youtube.com/watch?v=85pP7yvA3do&NR=1
agora é verão outra vez.

23.8.08

A vida na Fanfarra (relato de duas retalhadas... causticadas)

Dias de festa. Dias de luz. A noite transformada em tuba e todos os pés fora do chão. Os violinos tocaram, mas esses nem sequer estavam lá. Apenas corpo e dança e noite por-para caminhar (e quem disse que o dia tem 24 horas, enganou-se).
Eram oito anjos em formato musical. Nós éramos duas e tudo aquilo que sonhávamos ser. Multiplicadas na pauta do coração, seguiamos a luz, deslumbradas!

Porque o movimento era belo e simples.
Porque aquele som -sim, AQUELE SOM!- tem a cadencia da verdade, é belo, arrebatador...


(Nota da retalhada-mor: Ai, tantos anjos juntos!)

20.8.08

beber bagaço

assim, sem nada que me prenda à terra, é mais fácil voar:

conheci poetas, reencontrei almas penadas d rock, jantei em Cabo Verde, bebi licor de mel, mudei de casa, mudei de penteado, mudei de paixões, estive embalada na voz doce dos amigos, falei com desconhecidos como se os conhecesse, chorei muito, ri muito, dormi pouco, bebi muito e quase morri afogada em cerveja,...

(esta lista podia verdadeiramente continuar. não seria difícil. também não tem qualquer tipo de interesse, a não ser a minha vontade de falar destas inúteis e preciosas coisas. fico-me por aqui).

14.8.08

eu sei que incendiaste a tua mão acidentalmente, ao tentar recortar-lhe formatos de asa.
Para que me devolvas o ar, meu amor.
Para que devolvas o espaço que me falta dentro.
Para que recupere a capacidade de incendiar o chão e dormir,
ao lado dele,
sobre ele,
acima dele,
dentro dele.

Sem queimar a pele.

8.8.08

unhas

eram apenas as minhas unhas sujas da tua pele.

ao longe um cântaro de água, que poderia usar para beber ou lavar.

parti o malfadado cântaro com os dentes de um anjo velho e inútil que tinha bocados da minha cara espalhados no rosto (bizarra criatura passeando no dorso do meu cansaço).
persegui a sujidade da noite, com uma esperança de coisa nenhuma, (coisa rara essa de já não me comprometer com nada)


respirei. estavas finalmente morto.
agora sim, posso começar a escrever-te.

2.8.08

...


vim para te dizer que roubei milhares de pássaros à noite.

...


e que eram para ti.

26.7.08

...

Escapaste ileso, meu amor.
Agora guarda a aragem do não dito pelo dito. Contradiz a minha vontade de marcar o teu número na minha pele.
Impede-me de alcançar o teu sorriso. Fecha a boca ao hálito do desejo e deixa que a voragem e o assombro, sejam desejos deslocados, como mãos sujeitas a esforços prolongados.

Cerra-me as pestanas minuciosamente, repetindo a cada segundo a fuga, até me veres morta de cansaços.
É um desassossego, viver com tanto amor nos olhos…
Vira as páginas do meu cabelo, acelera o compasso da melodia que celebra os teus regressos.
Essa melodia é um engano, meu amor.

Não dês importância ao tamanho absurdo das minhas palavras, para que eu esqueça a proporção dos afectos.

O amor lateja nas pálpebras.
O amor lateja nas pálpebras.
O amor lateja nas pálpebras.


…Deixa-me ir mesmo quando regresso.

23.7.08

COMO UM ROMÃ-CE ou Penélope, a história de um fenómeno meteorologico

Penélope, tinha um nome exótico e um corpo abandonado ao mar. Repetindo o caminho e revendo a paisagem, verificava pormenorizadamente o percurso e as suas falhas.
Nesse trajecto, esquecera muitos nomes, e contava as caras que perdera de vista, variando a ordem de afectos, como quem varia a polpa dos dias.
Penélope corria para longe de si, mas era inútil a fuga, porque vestia-se de melancolia. Penélope respirava mais fundo do que o fundo do mar onde se abandonara, procurando coragem, audácia, secretos alimentos de alma, que pareciam levá-la mais depressa para novos lugares.
Hoje podia ter chorado, mas não chorara. Deixara-se perdida, frente ao sentido obrigatório, que aponta lugar nenhum, fora da carne, fora de si, na extremidade do possível. A mente coberta de fina neblina e frio no interior dos ossos, e frio entre os dentes e frio nos poros da pele e frio na cavidade do coração. Penélope não sabia para onde se dirigia, mas persistia. E era tolo quem lhe encontrava algum acto de bravura, porque estava frágil e só podia partilhar esta verdade, silenciosamente e sozinha.
Mais logo, quando a noite chegar, Penélope pensará mais e o frio será maior. Vai ver uma bela mulher a dançar com os seus fantasmas. Mulheres à beira do desamparo. O que fazemos com isso? Como gastamos isso? Surge vivo o café, muitos cafés, muitas cadeiras, que são miradouros de passagem. E uma vez mais os caminhos, um, dois, três, quatro, muitos. Há caminhos que não se contam, há caminhos que não se cantam. “Há textos que são a transformação de uma vida”, ela lê a frase, repete-a. Estão 19 graus, e ela está num lugar que não quer nomear, porque isso seria situar-se onde ela não está.
Farta de lugares comuns, farta de ideias de lugares, farta de LUGAR, LUGARES, L-U-G-A-R.
Defende-se com memória e projecta no horizonte a vontade repetida. Perdeu a vizinhança, que é como quem diz, ficar dentro de uma casa vazia, com gente dentro. São caixas em cima de caixas. É cinzento e pedra. São braços que faltam aos braços, tudo ao contrário, como num espelho que reflecte o inverso, como num corpo que repele o peso das circunstâncias. Farta de pragmatismos baratos, acredita que o coração pode ter aço dentro e no entanto, para lá de todas as evidências, quebrar-se com o tempo, quebrar-se com o vento.
Só um livro como aquele podia salvar o mundo, leu, mas esse livro não existe. É pena, pensa, mesmo que a salvação seja precária, exija dedicação, esforço, continuidade. Coisa que ainda não sabe se tem dentro, ou, no caso de não ter, como fazer para alcançá-la.

17.7.08

LOVE YOU LIKE THE SUN

I love you like I love the sun in the morning
But I don't think a few words of mine are gonna make you change your mind
I'm gonna spend the day in bed and I'm planning on sleeping my life away
You'd better come right down and do it all over again.
spiritualized

alguma espiritualidade

Spiritualized- Anyway that you want me

If its love that you want
Baby you got it
From the depth of my soul
Baby you got it
I've been watching you
Am I loving you in vain
Girl there's no need to explain
Anyway that you want me
Anyway that you'll take me
Anyway that you'll make me feel a part of you
Anyway at all

If there's dreams in your heart
They'll last forever
from the depth of my soul
I'll make them come true
I've been watching you
Am I loving you in vain
girl there's no need to explain

Anyway that you want me
Anyway that you'll take me
Anyway that you'll make me feel a part of you
Anyway at all

15.7.08

NEGRO- AMARELO

Começar a recordar numa nova casa amarela. O mundo é redondo, mas angular por dentro. Esta descrição é contraditória, engasga-me (mas isso deve ser por causa de um mal físico, que padeço- temporariamente).

A casa perdida num monte, com um amor lá dentro e sementes de girassol. Nessa casa, havia muitos e diversos lugares. Eu vivi lá mais de cem anos, não é nada que se esqueça do dia para a noite!

Perdi muitas coisas. Coisas importantes. Coisas valiosas. Se crescemos por isto, dou por mim mais alta daqui a uns tempos...

E no fundo, tenho sorte, amanhã arrancam-me a garganta e se tiver sorte, pode ser que o Boris Vian me visite, e arranque também o coração.
FIM

10.7.08

CORAÇÃO

O coração sai do corpo para voltar depois a correr para dentro dele. Nessa altura instala-se, soberanamente, por entre os precipícios do medo e quando corre bem, consegue construir um castelo.

O coração é inocente e tem o tamanho de um ovo. Prepara-se sempre para transmutar a pele em pena, anseia um corpo bizarro: quatro braços, ancas duplas e longos dedos.

O coração é pequenino, de uma infância comovedora e cruel. Encontrá-lo dentro do peito, aceso, em longa erupção, é ainda um fascínio, mesmo depois de conhecido o deserto de um co-R-po vazio.

O coração parece quente, quando visto à distância do longe. Conhecendo-lhe a temperatura interior será, escusado falar dos trópicos e dos pólos. Escusado será procurar o calor exacto, que torna comuns os diferentes.

(cont.)

9.7.08

coisas que não se possuem

A casa era minha, na imaginação. Tal como o passeio, o asfalto, os sapatos enfiados no coração, para cruzarem insinuosos caminhos (e um coração deve andar descalço).

As mãos eram minhas, os pulmões eram meus, mas as funções vitais eram outras. Mãos que apanhavam o ar, pulmões que seguravam afectos e bicicletas (que pensando bem nas coisas são a mesma coisa).

A noite era minha, o farol era meu, mas não tinha barco para cruzar as ondas de cabelos por tocar.

(cont.)

25.6.08

13.

YOUR EYES,

THEY TELL ME...

14.

fechas a mão porque te dói agarrar o tempo.

com os dedos cerrados, a duração que é um poema de amor (peter handke) destróis o castelo de cartas por escrever e a memória apaga-se, caprichosamente.

24.6.08

15. "Lá fora é Verão outra vez"

a luz percorre este mundo de lés a lés.

Agora a memória aperta e vai para todos os lados, indistintamente.

Ao mesmo tempo, o desejo de arrumar tudo no lugar certo, esvaziar o armários, rodopiar.



Escrevo-te para dizer que a estação das chuvas acabou, que agora o caminho

20.6.08

há lá muitas iguais a esta

nÃO CANTes esta CaNÇÃO. ElA não vAi ReveLar o NosSO aMOr.
(In Foge, Foge Bandido. Manel Cruz)

Eu gosto muito. Eu gosto tanto. é um livro a cantar lá dentro. Manel Cruz e amigos. Foge, foge bandido

A música tem imagens e caras e vive o ritmo da vida, como um pensamento em contínuo ou um poema muito vivo. Encantador. PENSA EM ALGO BOM.

13.6.08

Intolerável , meu caro amigo

Agora é tarde e deves descansar o dorso do teu silêncio, numa almofada cheia de velhos ácaros.

Encostas-te à janela, mas é indiferente o movimento da luz, porque os olhos ardem, aflitos... ausentes.

De qualquer forma, sabes que vais voltar a tentar. É como subir um elevador para lugar nenhum, disseram-te com escárnio.
Confia em ti, pateta, vinga o peso do teu corpo.
Sem cedências.

(De qualquer forma, o vidro está partido outra vez. O carro cheira a cinza e está sujo. A avó ligou, diz que o gato está doente. Não mia, nem fala.O meu dedo está farto de apontar o norte. Sigo-o ou sigo-te mais logo, quando a lua estiver mais alta do que o meu ego).

3.6.08

movimento perpétuo, azuis anos, paredes quebradas


24.5.08

"o mesmo disco sempre a tocar" al berto


9.5.08

Weird Fishes/Arpeggi . Radiohead


In the deepest ocean The bottom of the sea Your eyes They turn me
(myspace.com-radiohead)

Suburbanos - parte 1

"A coisa é outra coisa. Mais esquisita. Maior."
A coisa a que chamam vida, essa que passa depressa e devagar, submissa a insondáveis caprichos, feita de pequenos nichos, pequenos nadas, é outro assunto.
Essa coisa que dá pelo nome de matéria humana, que sou eu, que és tu , aqui, a passear-te por todo o lado, a passear-te dentro de mim, a passar-me despercebida, quando a rua está cheia e eu perco a paciência e fujo para um lugar qualquer dentro de mim, e não importa se são tripas ou coração, ou…
Esse ser, que sou eu, ainda aqui, sentado, sozinho, ao lado de ninguém, sou mais eu do que alguém, algum dia poderá ser. E esse outro ser que és tu, dentro da minha cabeça, ou como disse o Pimenta - TU, DENTRO DA TUA CABEÇA - ou o outro lado de ti quando te olhas ao espelho e observas as irregularidades da tua pele e o lugar mais escondido dos teus olhos.
Este corpo que é um sentido, este corpo que são muitos sentidos. Este corpo que come e que te come, se desejares. Esse homem de apetites, esse homem de apetências, esse homem que talvez te apeteça, sou eu. Sou um homem de deus e do diabo.

25.2.08

.

ele era um homem que passava muito tempo a arrumar as coisas no sítio, a colocar os olhos no lugar do sal, a esfregar as mãos com sabonete de alfazema e a diagnosticar doenças de ocasião.

ponto final

Tulipas e vento


Quando chegares, depois de percorrido o caminho onde hipotecaste o brilho da lua, eu estarei calada, sentada, observando o vento dentro das tulipas.
Vais perguntar-me porque observo, calada e sentada, tulipas e vento. Eu vou dizer-te que desde cedo, procuro belezas raras e morosas.

E que não há nada mais belo e melancólico, do que esperar.

14.2.08

Se tiveres sede...

Se tiveres sede, não bebas rapidamente a paisagem.
Desliza lentamente nos líquidos da tua invenção e deixa que eu te surja sob o mais profundo desejo.
Não teças desilusão no meu capricho, a vida é amarga e nem sempre pedras fazem castelos.
(tudo para que saibas que afinal o capricho é também uma forma de amar)

8.2.08

since I've seen you smile

video
Well it's been a long time, long time now
since I've seen you smile.
And I'll gamble away my fright.
And I'll gamble away my time.
And in a year, a year or sothis will slip into the sea
Well, it's been a long time, long time now
since I've seen you smile
Sob escuta: Beirut . Nantes

Extremamente simples



Não sei se serei mais feliz.


No máximo será diferente.


No máximo serei diferente.

5º ANDAR


5.2.08

Deslumbramento



Este seria também um poema inventado, se não fosse agora mesmo concreto, legível.


Porque era escuro e denso como uma Primavera trocada, comprada por encomenda a um mercador de enganos. Porque era ágil e movia-se sob os pés, tocando a superfície invisível do poema. Porque era grave, acentuando-se vertiginosamente na pelugem dum hemisfério inventado. Porque sabia de leis, ditando-as suavemente, numa cadeira que construía à medida dos ventos e das marés. Porque às vezes feria a última pele imaginada, o último reduto de vida. Porque às vezes os seus braços eram grandes e dentro deles cabia a onírica cabeça do corpo apaixonado. Porque não tinha pressa de chegar ao fim do amor e ficava muito tempo a observar-lhe o interior dos olhos, como se lhe enaltecesse todas as belezas. Porque dava amor na mesma proporção com que roubava a luz por dentro. Porque o seu peito acolhia sementes novas e guardava-se depois secreto até nova colheita. Porque o seu riso transbordava de cor, mas fazia-se cinzento quando invadido pelas tempestades.

Porque era feroz e deslumbrante.


Restava amá-lo.

25.1.08

melancia rima com melancolia


in blue


14.12.07

nudez

nada do que trazia despido parecia conveniente para receber o deslumbramento de ti, por isso deu-me para inventar:

coloquei asas onde outrora reinavam circulares braços, saqueei a epiderme dum poema exótico e maltratado (para que te crescesse o entusiasmo), coloquei olhos no corpo, para rever de lés a lés os teus segredos e decorar o teu perfil... os poros fechei-os um a um, para que não me soprasse nenhum vento, nenhuma aflição, no interior do corpo.

exigias-me a nudez dos amantes, aquela parte de corpo, que se perde quando se dá. eu gostava de ti ao sol, quando transpiravas luz e queimavas o medo.

deu-te para praticar. com alguma habilidade, rabiscaste no interior do meu coração a palavra AMOR. disseste que nunca a tinhas escrito desta forma, que sempre falhara o pretexto para compor o último tema.

a mim, faltara-me a elocução para levar a preceito a descoberta. por isso dormi sem a tua visita, tive sonhos, tremi.

sem temor, como quem sabe segura a palavra escrita, deixaste-me uma pequena morte no sangue, que é como quem diz, nos olhos, nos ouvidos, na boca.

talvez regresses com tinta durável, promessas de permanência. eu acreditarei
.

sobre ausências....

teria dito que o fruto era doce, que as mãos estavam cheias e que nada faltava na paisagem.

teria dito também que tanta satisfação aniquilaria de vez os dedos e com eles os pianos, as melodias por inventar.

teria dito que mesmo assim, era bom comer cerejas frescas, nuns lençóis muito usados (e isso nem sequer pareceria feio...) e deixar a noite suavizar o corpo.

30.11.07

rasgar

disseste que se rasgasse cada um dos meus cabelos, reconstruirias as nuvens e com elas novos cenários.

eu não acreditei, mas por via das dúvidas, sentei-me e executei a morosa tarefa. Demorei muito tempo, lembro-me do sol e da chuva. lembro-me dos dedos muito cansados e muito velhos, rasgando cuidadosamente, cada cabelo. lembro-me de sentir a noite e depois o dia. lembro-me de ter a sensação de ver passar a vida inteira e repetir um a um os meus gestos.

lembro-me também que não chegaste a voltar.

24.10.07

porque hoje o dia tem o teu cheiro

..."falo-te das coisas que amo, para que as ames comigo"... eugénio de andrade
é no ouvido que deves segredar o essencial, no entanto é por dentro do coração que deves espalhar essências raras do corpo- do teu corpo.
partilho contigo este segredo cheio de intimidade, para que seja único e eterno cada momento. para que a casa, seja sempre um lugar possível a cada paragem. para que não estranhemos a decomposição das paisagens, porque o amor é mutável e nós somos eternos no que dele se altera.
e para que fiques muito tempo, mesmo quando te ausentas.

19.9.07

16. sarah kane. hoje. porque sim. CRAVE. O que sera? (a flor da pele). chico buarque

A- E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu
e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.” Sarah Kane, in Falta (Crave)

Chico Buarque -erá que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

15.9.07

17.

deixa que te agarre pelo braço e vamos ver as ondas dos mares e dos cabelos. deixa que te compre um retrato novo ou pouco usado, como aquele que vimos ontem e gostaste tanto. deixa que te trate pelo nome que

11.9.07

Tratado para a reinvindicação do real


Quero dizer-te que:
os braços, os dedos, os dois cotovelos e a sua pele enrugada, os pelos descolorados, o nariz aquilino e grave, os olhos.


Quero dizer-te que:
as artérias, o sangue, a água da saliva, os rins, o estômago, cheio ou vazio.


Quero dizer-te que:
o batimento cardíaco, o sono trocado, a ansiosa transpiração, o aperto no coração, as dores de ovários.


Quero dizer-te que:
o ideal romântico, a imaginação acesa, a desordem interior, a certeza de continuar, a perturbadora timidez.


São pura e absolutamente reais.

6.9.07

Como um zumbido

Desfeitas em caruma, as mãos continuam a arder.

4.9.07

nenúfar na memória breve. hoje ouvi dizer que faria sol, do outro lado da península do desejo. Ouvi dizer que "hoje" é um lugar demorado e tardio

e era noite há muito tempo, ou assim me parecia... tornara-se noite no repente que traz um poema e desfaz as mãos em caruma (qualquer coisa que se queima, qualquer coisa que se incendeia... e a vida volátil, ri-se irónica, por cima dos meus ombros agrestes).
e vai-se a mácula e rasgo as cartas que escrevi dentro da cabeça ou nas paredes do corpo (confundo a anatomia, tenho dormente o cérebro e talvez durma muito, quando passares por completo) . Todo ele - O CORPO- cheio de cartas por abrir, outras por escrever, outras por baralhar... e eu que baralho tudo, que penso saber importantes métodos de salvação, saio à rua e estou vazia, oca.
deixas então o espaço possível, ultrapassas-me os braços e és muito veloz (e eu tenho todos os sustos despertos desde então, porque não voltas a imaginar divãs, nem eu volto a ser diva, ou qualquer coisa de muito humano, muito simples, muito fácil de amar) . Dizes-me que afinal, os poemas são das matérias difíceis, as mais fáceis de desperdiçar. Não ouves o outro lado da voz, mas estás seguro e eu tenho-te inveja e uma incomparável ternura.
Apetece-me balear-te a voz com discursos surpreendentes, comover-te de espanto, ver abundante água a pass(e)ar, comer gelados de chocolate, inventar sopas e chinesas, tocar pianola e folhear-te os olhos.
Hoje apetecia-me que tudo acon- tecesse.

27.8.07

Resoluções definitivas

Não atires a última pedra.
Atira a primeira que vires, e certeira.

Considerações dispersas


- eu volto, como quem regressa a um disco muito antigo, selado numa memória. O caminho não é doce, mas seduz-me a aridez onde escondes o mais brilhante de ti.

- tenho hoje vinte braços à minha volta e faz-me falta um último abraço.

- não me disseram ser simples o teu caminho, não pensei ser fácil o labirinto da tua pele, mas agora que me vejo transformada na supra-projecção do meu delirio e a rua fica fria como gelo, gostava de voltar atrás e apagar algumas linhas do teu caderno, onde me desenhaste com outro rosto (um rosto que não é o meu).

26.8.07

The Smiths - There is a light that never goes out

Take me out tonight
Where theres music and theres people
And theyre young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please dont drop me home
Because its not my home, its their
Home, and Im welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldnt ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one, da ...
Oh, I havent got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out

Re - Visitar a Pó - Esia

http://www.aveiro.tv/scid/aveirotv?refID=0|5|386|0

22.8.07

sobre o avesso


o que me ensinaste foi precioso.

ensinaste-me por exemplo que o avesso de qualquer coisa, não é sempre o seu contrário.

que o lado de lá do amor, não é o desamor.


e que por vezes, o avesso não regressa a lado nenhum.

17.8.07

17. a kind of family

Red fish in love


12.8.07

...

Regressar, sim.
Mas regressar diferente.

8.8.07

Repetir a cidade - No repeat, baby. No repeat.

Nesse dia demos muitos passeios e ele parou muitas vezes para me contar o que os seus olhos viam. Quase sempre viam coisas que primeiramente eu nem reparava. Achei que deviamos repetir aqueles passeios, mas ele não voltou a aparecer na cidade... OU, a cidade não voltou a aparecer em mim. SIMPLES COMO A CLARIDADE É A COISA MAIS DIFÍCIL DE ENCONTRAR, disse o Mário H. Leiria... e PRATICAR, digo eu em surdina.
(Importante: ler ao som de Beach Boys, "God only Knows" ou Supremes ,"Baby Love" )

Porque é verão... Considerações mínimas e solarengas

os turistas . paco minuesa

- Um turista bonito, nunca vem sozinho.

- Hoje fui actriz em dois filmes... de turista.

Abandono-te agora que a noite cai no interior da pele


5.8.07

alto, muito alto OU o meu projecto é construir-te asas

"Klaus é um homem alto. Conheceu Johana porque ela olhou por cima de uma sebe verdíssima e olhou por cima de uma Primavera ainda mais cverde do que a sebe. Eles costumavam brincar:
Se tu não fosses tão alto, não te teria visto por cima da sebe.
E Klaus dizia a Johana:
Se eu não fosse tão alto, a sebe seria mais baixa."
Gonçalo Tavares in Um homem: Klaus Klump
Enquanto o teu coração ardia na palma das minhas mãos (quente, quente, muito quente), transportavas nos olhos uma luz profundissima, que cegava o deslumbramento. Eu passava horas a mirar-te na minha caixa de brilhos mentais.
Era também de pés enterrados na terra que caminhavas. Eu sabia que era um hábito apreendido e amargo, mas o que eu gostava era de te inventar asas no alto da cabeça, tornar-te aeroplano e voar contigo numa folha de papel ou de alface, tanto faz.
Também eras muito alto. Isso era cómico, porque tropeçavas nas árvores e os pássaros aproveitavam-se de ti, para construirem casas e fomentarem a espécie.
Tu rias da tua des- GRAÇA, desajeitado, com um fato tão comprido que ocupava os teus dez dedos de tecido inútil (sei agora que aqueles longos tecidos onde enredavas os gestos eram apenas para te esconderes do medo, para seres mais corajoso e sagaz, para pensares com mais... muito mais... velocidade). Eu ouvia-te, mas os ramos da atmosfera seduziam-me mais do que as palavras e eu queria escapar-me, volátil, e ensinar-te a voz do vento.
Nada feito, eras feito de bolo de bolacha, sempre com camadas diferentes e dificéis de penetrar. A minha curiosidade vacilava... talvez fosse teu o caminho por entre o arvoredo. Eu fico na montanha ou na planície. Sempre a ver-te, muito acima ou muito abaixo, debaixo dos meus olhos, ou enterrado nas minhas pálpebras., nas linhas da mão ou nas linhas do céu. Eu fico.Observo.
E sim, o meu projecto era construir-te asas.

18. "Estou um pouco no interior do que arde, apagando-me devagar e tenho sede"- daniel faria



4.8.07

como uma eterna festa


1.8.07

Por isso parei na paisagem inventada...

29.7.07

um piano para três

Era em comoção que observava o seu movimento circular, metamorfoseada em bola-espelho, na cambeante luz do sol.

Inundava-me um mar muito antigo, lendário, narrado há muito tempo por belos seres marinhos e eu meditava silenciosamente um poema que nunca mais me lembrarei.


Só depois de três lágrimas muito quentes, voltava a sorrir e ela sorria comigo e eramos uma - UNA- extremamente iguais. A oficina desmantelada, quebrava-nos a medula e era triste observar os corpos abandonados, transbordando amor, delicados-deliciados pelo piano inventado a três.


Ele era o outro habitante, quedado na plateia, assemelhava-se ao que de mais belo poderei recordar. Para ele tomei de empréstimo al berto, Nému ,e carinhosamente abracei-lhe o coração.

Um no outro, era na transparência , que inventávamos o movimento, respirando o ar, atravessando os corpos alheios (cont. ....ou não)

27.7.07

I

hoje passeei no dorso do teu delírio pela última vez.

apagaste-me a vocação de amante (i-remediavelmente).

(apesar disso, «algo em mim/caminha/ ao teu encontro» , como disse o alberto...pimenta)

19. Hoje gostava tanto de ter dito coisas que não disse


26.7.07

22.

de

20. "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"

tudo passa, baby... (composição poética sobre a multiplicação das passagens, qual milagre bíblico imaginado. Trata-se de Real-Idade)


- sete caminhos e um barco de vento.
- um campo aberto onde começa o escuro dos sentidos;
- as minhas próprias mãos que pouco pensam;
- amores perfeitos na gola de um casaco;
- a imprevista meteorologia das paixões;
- uma mística ilha de centauros;
- uma língua no sonho da saliva.

"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta

- dez comboios em partida simultânea;
- uma caleidoscópio de pálpebras;
- uma praça e o amor em estado de sítio;
- um imenso salão de baile;
- corpos embriagados a falar de amor;
- uma alegria suspensa na solidão;
- o mundo em brutal compressão;

"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta

- uma grande nuvem de vermes-almas
- filmes de artista
- uma carrinha de três rodas
- um japonês paixonado pela sua namorada virtual;
- o rigoroso inverno de 1927- 1928
- uma mulher sem sombra

"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta

"Isto passa. tudo isto passa. tudo isto passa pelos teus olhos. ou: os teus olhos passam.os teus olhos passam por tudo isto, baby" A. Pimenta


Ausente como um tentador sopro


23.7.07

quando acordares e abrires a janela


21.7.07

"o teu sorriso colou-se-me à boca" - al berto



Sempre toquei violino por instinto,
com as cordas do teu cabelo atravessadas nos meus dedos.

15.7.07

"Como um súbito asfalto que nos subisse ao coração"... frase encontrada, em pleno caminho, alma acesa às dezasseis horas do dia ausente.

yves klein . revolução azul


"que os lagos gelam a partir das margens / e o homem a partir do coração" . Luís Miguel Nava



"Vulcão é a lição de uma errância pelo deserto."


Dezasseis horas de dia incerto. O corpo circula impedindo a circulação do tráfego interno. De poema suspenso no cérebro, procuro o sono (ele escapa-se, escapa-me, ESCARPA-SE sob um planalto feito à medida egotista do pensamento). A hora de visitas prossegue, o espanto é uma benesse. Eu ainda estou por aqui, mãos cheia de violetas e "amarelos malmequeres".


Rematando a viagem em Nava: "E o que acontece em cada uma das suas páginas-jornadas até ao rompimento da luz só pode ser o amor em que "havemos de arder juntos" .



14.7.07

o amor não tem tempo, e dura no que amaste (antónio franco alexandre) .ode às paixões e mágoas instaladas na memória

E este é um poema de amor encomendado de véspera
embrulho-me nele
acordo com a tua boca húmida nos cabelos
não direi que te amo.
António Franco Alexandre

trajecto, elevação, metáfora, metamorfose, alusão esquivo, autêntico, intenso, rude, escavação, amor, abandono, colagem...

55 55 55 55 55 55 55 55

Chagall

Durante horas e dias, ele passeia vagarosamente, dentro de si. À sua velocidade, séculos depois, ela chamaria AMOR.

Ele apreciava a lentidão do pensamento veloz. Saboreá-la, pressentir-lhe os segredos, e depois quedar-se novamente, sentado numa grande cadeira transparente, que ocultava o seu primeiro esqueleto. Ela conhecia-lhe a segunda e a terceira pele, os mil esqueletos, o calor dos seus olhos.


Ele observava o mundo através duma grande janela. Do outro lado do vidro, passeando sob a planicie, a voz dela contava-lhe o que ambos os corações viam:


"Casas contornadas de presenças, gatos e cor. Os gatos brilham muito no escuro, apesar de ser dia. Dentro da rua, as pessoas circulam. Uma criança leva um balão e sorri. Uma mulher chora com muitas lágrimas, mas ninguém se comove. O trânsito aflito segue e segue e segue. Um homem abraça uma mulher, depois segura-lhe a mão. Vai."


Ele comove-se. Depois senta-se novamente na sua grande cadeira.Ela convida-o a passear no seu astro pessoal. Ele vai, sucessivamente, multiplicando o sol. 55 vezes, diriam mais tarde, sorrindo, um ao lado do outro, um dentro do outro, aquáticos e plenos, como o "dia primeiro", o princípio de cada um.








13.7.07

Porque do coração cuida-se e gasta-se... incessantemente.



"deverias não a conhecer e tê-la encontrado em toda a parte ao mesmo tempo, num hotel, numa rua, num comboio, num bar, num livro, num filme, dentro de ti, em ti, ao acaso do teu sexo erguido na noite que procura um lugar onde se meter, onde se libertar do choro que o enche."

Marguerite Duras . Textos Secretos . A doença da morte

12.7.07

"Acordamos, já sei, transparentes e sábios, do outro lado da criação do mundo" . antónio franco alexandre



Estava em Caminha.


É uma terra densa, bela, difícil de respirar.

Caminhava em Caminha (sem caminha nem descanso) e encontrei um lugar de livros, que é a casa onde os livros escolhem habitar, vulgo biblioteca.


Foi em caminha que encontrei al berto e devorei antónio franco alexandre. um e o outro, lado a lado, próximos, colados, escrevendo sobre moradas variadas, na pelee nos oceanos... em silêncio.

Ali, os dois, quietos, comoviam. Eu chorei com todo o silêncio que o sagrado exige (e pensei gritando, com a atmosfera sinistra das minhas células, É ESTE O SILÊNCIO, depois calando-me, vendo os planaltos e a agressividade da alma elevada a poema).

ligeiramente suspenso, pensei:

nunca mais poderei esquecê-lo....

antónio franco alexandre

24. Escrevo a tua morada, mas sei que me egnaongano

"

6.7.07

25.

Era uma casa, como direi..... ABSOLUTA.

So in a manner of speaking... Tuxedomoon em repeat na rádio mental


In a Manner of speaking I just want to say That I could never forget the way You told me everything By saying nothing

In a manner of speaking I don't understand How love in silence becomes reprimand

But the way that i feel about you Is beyond words

O give me the words Give me the words That tell me nothing

O give me the words Give me the words That tell me everything

In a manner of speaking Semantics won't do In this life that we live we live we only make do

And the way that we feel Might have to be sacrified

So in a manner of speaking I just want to say That just like you I should find a way To tell you everything By saying nothing.

O give me the words Give me the words That tell me nothing O give me the words Give me the words Give me the words

5.7.07

Eloquente...

Hoje era um bom dia para não escrever... para não ter escrito....

Sobre as coisas puras... nada a dizer, agora que se desvanecem

No decote do oceano, bordei três pedras de sal... efémeras e graciosas pedras como o peito de um amante voluptuoso.
sempre te faltou a eficácia. apesar de forte e autêntico. não sei como explicar-te esta contradição, que afinal parece nada dizer. devo ter falhado os preliminares...
quanto aos preliminares, mais tarde falaremos, porque agora é tarde e o poder das coisas puras desvanece-se...

...


por vezes o texto morre. a palavra morre.

Inacabado

Sentei-me ao lado do teu sorriso, no lugar onde prometeras repetir o amor. Eu, que sempre usara Vinicius na cabeça e nas ondas do cabelo, penteei-me vagarosamente antes de sair da casca do lar, onde miava um gato branco e azul. Procurava-me bela,mirando o corpo ao espelho.
Troquei os primeiros caracóis de cabelo, pelos últimos, calcei ... (cont.)

"na casa de julho e agosto"- viagem extra sensível de Gabriela Llansol


"Sempre me senti paisagem"


"Quanto mais a criança se mexe, impetuosa de movimento interior, sob o choque matinal da exterioridade infinita, mais o seu passo é certeiro e inadequado o seu pensamento. É o momento perigoso de saber. VAMOS CORRER, diz ela. Era tudo o que eu queria ouvir. Eu, paisagem, e ela, criança. e lançamo-nos, lado a lado, numa correria através dos raios luminosos que abrilhantam essa manhã tão dada. Opera-se em nós uma reacçã química, rápida e violenta, acompanhada de grande elevação das imagens. Àquela altura só pode vir do futuro dos tempos. A atmosfera entra-nos pelos poros."


"De livre vontade abandonei a casa com Coração de Urso com meu filho ao colo, indo pelos campos; a casa abria sobre uma enorme cosmogonia que não poderei deixar de relembrar."


"Há infinitos no ínfimo de cada escala. Há um dom poético poderosíssimo à espera em cada centelha de consciência."

4.7.07

21.

hoje, antes de adormeceres, soprei-te nas pestanas.

26. E porque é tem toda a beleza que os dias quentes e frios

Canto de Ossanha . Vinicius de Moraes

O homem que diz "dou" não dá

Porque quem dá mesmo não diz

O homem que diz "vou" não vai

Porque quando foi já não quis

O homem que diz "sou" não é

Porque quem é mesmo é "não sou"

O homem que diz "tô" não tá

Porque ninguém tá quando quer

Coitado do homem que cai

No canto de Ossanha, traidor

Coitado do homem que vai

Atrás de mandinga de amor

Vai, vai, vai, vai, não vou

Vai, vai, vai, vai, não vou

Vai, vai, vai, vai, não vou

Vai, vai, vai, vai, não vou

Que eu não sou ninguém de ir

Em conversa de esquecer

A tristeza de um amor que passou

Não, eu só vou se for pra ver

Uma estrela aparecer

Na manhã de um novo amor

Amigo sinhô, saravá

Xangô me mandou lhe dizer

Se é canto de Ossanha, não vá

Que muito vai se arrepender
Pergunte pro seu Orixá

O amor só é bom se doer

Pergunte pro seu Orixá

O amor só é bom se doer

Pergunte pro seu Orixá

O amor só é bom se doer

Pergunte pro seu Orixá

O amor só é bom se doer

Vai, vai, vai, vai, amar

Vai, vai, vai, sofrerVai, vai, vai, vai, chorar

Vai, vai, vai, dizer

Que eu não sou ninguém de ir

Em conversa de esquecer

A tristeza de um amor que passou

Não, eu só vou se for pra ver

Uma estrela aparecer

Na manhã de um novo amor

a verdade é que está demasiado calor para se ter frio..


Trata-se de um coração que voou...


2.7.07

Multiplicando a espera


Relógio perdido no fundo do pulso, entre artéria e artéria. Ele- o relógio- permance, palpitante... espera-te. O meu relógio espera-te e os dias de espera já passaram todos e voltam a repetir-se.


O meu relógio, afinal é de osso, tem esqueleto. Quando ontem, deitado na cama, embrulhado num lençol amendoado, perguntaste, porque esperava, eu não te disse nada. Não se espera um morto, segredaste, pousando agora o corpo pequeno e pálido na tua alcofa de menino.

Só quando sumiste do campo esverdeado dos meus olhos (num verde agora mesmo inventado), respondi-te à letra, na letra certa que se poderia cantar, se eu tivesse a voz ou a guitarra:

Estou ainda à procura de violetas num prado dourado. Foi o Herberto que as evocou - as VIOLETAS- e eu nunca duvidei que elas- as Violetas- existissem. À espera.



30.6.07

27.

O Mário Viegas, o Samuel Beckett, o al berto, o david ...

29.6.07

E no FIM disto tudo, um azul de prata.... Biografia de amor


"Song to the Siren" by This Mortal Coil . Did I dream you dreamed about me? Were you here when I was full sail? Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks. For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow. "Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow. I'm as puzzled as a newborn child. I'm as riddled as the tide. Should I stand amid the breakers? Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you"Here I am. Here I am, waiting to hold you."

Nasci em 1979. Tenho quase 28 anos. Casei-me em 1952, um ano depois de teres partido irremediavelmente para o mundo dos mortos. Não foi por acaso que te escolhi para casar. Escrito na pele, o teu nome era uma companhia... uma campainha também, à qual poderia aceder à velocidade-segundo-desejo do pássaro que me despertaras.

Não te vi passar na rua e no entanto, eras o rapaz mais bonito que eu já vira passar! Nem bebemos vinho ao entardecer, nem enlouquecemos de amor numa cama de hotel.
Para ti eu não era uma rapariga. Nem um rapaz. E nem sequer precisava. Isso era belo.

Um estranho nada-tudo-tudo-nada, muita coisa para caber numa palavra ou num papel.

Por isso casamos. Anos antes de ter nascido, no ano seguinte à tua partida: António Maria Lisboa.

(Casaste muitas vezes depois do nosso enlace. Não importa. A verdade é que sempre foste fácil de amar. E belo. Meu nunca-sempre, António)

Evidentemente, minha cara...

Eu sempre pensei que sabia muitas coisas. E sei.

Mas são poucas.

Betty. Novela fragmentada de uma mulher que anseia tornar-se rosa...


Betty saíu à rua. O vestido amarelo tocava-lha o joelho ferido. Uma marca recente. Como teria acontecido?... Pensei na vida de Betty. Senti que a sua vida me escapava...


Eu, mirone dos seus artifícios, escondido sob a sua saia, alojado nos seus passos, esvoaçando no seu cabelo.


Betty escapara-me. Betty escapara-se . O joelho de Betty guardando-lhe o sangue, a sede. Eu, deitado, chorando lágrimas reais, enroscado nas suas ficticias pernas,deitadas ao meu lado...

REQUISIÇÃO . sob a responsabilidade das mais profundas necessidades de um coração apaixonado

Pede-se aos entendidos em matéria emocional,
ajuda na realização e satisfação das seguintes necessidades:

- Quero o barco, a quilha, o leme. Quero depois a gaivota que cruza o teu pensamento e quero rosas para o teu jardim! Mais de mil.

- Quero oito braços ou um polvo em segunda mão. Quero um sol em estado permanente. Photomatons de cada inspiração. Quero amor solúvel na pele, nas artérias, condensado depois em beleza.

- Quero sete lágrimas para chorar ausências, um papagaio de papel e vento propicio ao vôo.

Desde já agradeço a colaboração.

9.6.07

Carrossel....


E então ela entrava-me na vida, derrubando a porta de entrada, sem pensar nas cicatrizes, no coração todo amassado, numa espécie de caricatura horrenda e inevitável.


Não era o perfume dela que procurava, nem era a rua dela que eu queria cruzar, mas escapava-me primeiro o pé, depois o sol, muito mais tarde uma inútil lágrima (que me lembrava sempre o Inverno), nesses caminhos escuros, onde morri como quem vive.


Já não te espreito na fechadura da memória, já não te levo no carrossel. Deixei-me de apertos. Agora quero aviões e passaportes ilimitados... Parte-te em cacos.


1.6.07

...

Devia ter-lhe dito para quedar-se silenciosa, mas cantou-me.
E depois amei-lhe o delirio sonoro, as suas esfinges musicais...
E procurei a sua casa, a marca dos seus pés no chão, o seu reflexo...

porque era teu o ....

porque era teu o meu coração, perdi metade dos olhos ao mirar-te em demasia, entre longe e perto, nessa distância sem intermédio, nem intermediário, apenas carne-sangue e paixão incendiada. Nua.

12.4.07

Inventár-io de Flores

Era sol e pingava chuva do tecto. O sono evadira-se . Acordara em sobre-SALTO, de coração despido na cadeira metálica e fria. Sentia-me tardia, na manhã que inventaras para mim. O tempo em questão era PERFEITO - ambiente envolto em fragrâncias maritimas, na ausencia de mar ( e aquilo era uma espécie de deslumbramento, uma espécie de luz, sem luz), cores em lilás, lilases pelo chão, doces de provocar salivas insanas.

Mais nada podias fazer, investiras as moedas dos teus bolsos sem fundo, numa casa que eu nunca amara, a não ser na revista folheada, num compartimento de de-lírio. Não me interessava a riqueza caseira, o pão-de-ló na mesa de festas e nunca amara flores de papel, onde se borratam tintas e lágrimas... nunca te disse, mas sempre preferi papoilas selvagens, frágeis, delicadas e cor de sangue. Quebradas do seu solo-sustento, vivem tempo efémero de borboleta e desmaiam na eternidade. Silenciosas.

2.4.07

Apenas AMOR . Vinicius


Vinicius
Um filme de Miguel Faria Jr.

A montagem de um show é o ponto de partida para a reconstituição de uma trajetória sem paralelos no cenário cultural do país. A vida, os amigos, os amores de Vinicius de Moraes, autor de mais de 400 poesias e cerca de 400 letras de música. A essência criativa do artista e filósofo do cotidiano e as transformações do Rio de Janeiro através de raras imagens de arquivo, entrevistas e interpretação de muitos de seus clássicos. Participação especial de Caetano Veloso, Carlos Lyra, Chico Buarque, Ferreira Gullar, Edu Lobo, Francis Hime, Gilberto Gil, Miúcha, Maria Bethânia, Tonia Carrero, Toquinho, Renato Braz, Yamandú Costa, Adriana Calcanhoto, Olívia Byington, Mônica Salmaso, Mariana de Moraes, Sérgio Cassiano, Zeca Pagodinho, MS Bom, Nego Jeil, Lerov, Mart Nália.

A ver:http://www.viniciusdemoraes.com.br/

19.3.07

Depois de Velvet em ilhas do paraíso, a beleza alastra-se nos continentes do coração, surge o espanto

TV
SHOW
a (ir)REALIDADE em directo
a vida em directo. e quando o pano cai,
suspendes o movimento inflamado e inauguras o primeiro gesto.
"eu penso que a memória entra pelos olhos"
Narciso morre,
vítima do seu unipessoaldesejoanseio.


Eu penso que a beleza é uma coisa efémera!


555. Rua do Almada. Performance-Instalação

15.3.07

Conjugar o tempo


Foi sempre.
.é.
.para ti.
.nunca-sempre.
.que escrevi.
.escreverei.

Falta-me o exercicio da tua escrita


Era manhã e eu rascunhava no teu peito um insólito coração. Surpreendido, olhavas-me entre as pálpebras e repetias baixinho, sem deslumbramento, os meus gestos e artificios.
Eu buscava-te no lado oriental do meu desejo, mas dizias-me alto e a vinte vozes, que o desejo é o ego, o ego não se faz eco, o ideal é metáfora e os meus passos são trôpegos e frágeis para escalar uma montanha a frio.
Pensei-te pretencioso, mas como uma boa marioneta de enredar segredos, calei a voz, num poço fundo e retirei-me de mansinho para o meu silêncio, de acidentados vales, onde te sentavas, atento ao que já passara e ainda ardia...

14.3.07

Milhares de vozes gritam o teu nome silenciosamente


No lado esquerdo da tua mão, acumulavas recados que nunca lias.
Dizias que a surpersa-segredo, guardada entre dedos, mantinha-te aceso no susto de estar vivo.

Nunca me surpreendera a tua ausencia fragmentada em dilúvio, nem as tristes cores com que cosias os teus pés à terra, mas a interna-eterna maré circular do meu silêncio, sonhava-te carne viva-sangue em tenebroso rastilho, nas artérias desarticuladas da bailarina que não cheguei a ser.

Oculto, na transcendente manhã, fica suspenso um circular segredo:
Ainda gostava que perdesses os medos e te desses ao vento clandestino, onde o corpo-fragata, inventa sucessivos regaços aquosos, num simulacro de morte renascida e acolhedora.

2.3.07

Na tentativa de me transformar em poema....


1.3.07

Artur Cruzeiro Seixas - Pinta no céu das árvores e sonha para sempre dias nocturnos


As minhas coisas “acontecem”, porque são uma necessidade profunda. Um amigo meu, pintor, desejava o dia em que já não fosse capaz de pintar. Eu nunca seria capaz de o deixar de fazer. Em qualquer circunstância da vida vejo-me a garatujar num papel ou numa parede. Se considerar a pintura como uma “obra de arte” com tela, cavalete e materiais nobres, sinto-me assustado, mas esses problemas não se põem comigo, porque não é à obra de arte que aponto, e porque muito raramente utilizei materiais tidos como nobres. Desenhar e pintar são necessidades independentes de mim, que tem a sua parte de necessidade fisiológica.
Pergunta-me como comecei a fazer estes cadernos. Na verdade não fiz na adolescência o Diário que quasi todos os adolescentes fazem. Foi já muito tarde que comecei a alinhar breves notas daquilo que me ocorre no dia a dia, durante a semana ou durante o mês; as amizades, as inimizades, as descobertas (não descobrimos nada, está já tudo descoberto!), foi tudo isso o que fui apontando nos intervalos que tinha de outros afazeres. Nessas folhas ia metendo um bilhete de eléctrico, ou qualquer outra coisa que me sugerisse um momento vivido, fotografias de pessoas, e pequenas pinturas ou desenhos, etc, etc. São cadernos de uma grande fragilidade, constituídos por folhas de papel metidas em argolas, de maneira que com o tempo e com o folhear os buracos se rompem, e tudo aquilo sai do sítio. Foi um disparate usar tal excesso de fragilidade, mas já são trinta e tal cadernos, e seria impossível recomeçar. Alguém algum dia olhará com alguma benevolência este documento? Se calhar vão deitar fora tudo aquilo, pois é esse o destino de tantas coisas em Portugal. Mas esses cadernos aconteceram e continuam a acontecer, pois de certa forma disponho agora de mais tempo, passado o tempo em que fui tocado pela asa da pintura profissional. Isso já lá vai há muitos anos felizmente: Trata-se agora de deixar o meu depoiamento sobre um papel qualquer, com o lápis ou com a esferográfica que tenho à mão. Julgo que aqueles pequenos desenhos casuais, podiam afinal ser obra de arte, se transplantados para a tela e para o cavalete, digo-o sem falsa modéstia.
Na verdade nem quando pintei sobre tela usei o cavalete. De resto durante toda a minha longa vida, não devo ter pintado mais do que umas vinte telas. Elas correspondiam à tal necessidade profunda, mas também foram a maneira de sobreviver. Nunca acreditei muito naquilo que fiz, e o dinheiro que ganhava não dava para fotografar as obras. Assim, desorganizado como sou não sei o destino da maior parte do que desenhei e pintei. Justamente, há dias, numa entrevista, contava a estória de dois quadros que uma galeria tinha “descoberto”. Pediram-me para passar por lá para confirmar se os quadros eram de facto de minha autoria. Na minha idade avoluma-se a ideia de que o que fiz talvez não tenha qualquer mérito. Fui a essa galeria com um bocado de medo, e acabei por ficar tão satisfeito quanto possível. No entanto felicitei-me por não estar a fazer hoje a pintura profissional que vemos em galerias e em exposições.
Voltando aos “Diários” (prefiro designá-los como “Desaforismos”), eu não pensava que fosse possível serem editados, mas gostava evidentemente que alguém os folheasse. Foi um amigo espanhol quem mais se interessou por eles. Vive numa pequena e belíssima cidade, e o seu ganha pão é um quiosque onde vende lotaria. Por sua vez ele tem um amigo que tem uma modesta tipografia, e assim editaram 3 livros, maquetes originais, que o Mário Henrique Leiria me tinha oferecido, e que, sendo obras excepcionais, não tinham aqui merecido a atenção devida. Fiquei-lhes sempre muito grato, e a amizade estreitou-se. Visitamo-nos, e trocamos lembranças. De vez em quando presenteiam-me com restos de folhas que lá na tipografia reunem em caderno. A outras pessoas servirão para as contas do dia a dia, mas foi a partir daí, em folhas de papel de música, que passei a desenhar e a pintar, e a reunir Aforismos de diversos autores e os tais meus Desaforismos. Este caderno, mais uma vez casual, foi visto pelos irmãos António e João Prates da Galeria S.Bento, e resolveram-no incluir entre um projecto de edições numeradas e assinadas pelos autores, e resultaram bonitas edições. Esse livro intitula-se “Local onde o Mar Naufragou”. Outro livro recentemente editado reúne principalmente poesia e desenhos datados dos anos 40/60. Trata-se de uma nova editora, mas o livro é extremamente cuidado, e pode ser classificado de luxuoso. O livro intitula-se “Viagem sem regresso”, e a editora é “Tiragem Limitada”.
O meu método de desenho é não ter método. Tirei apenas o quinto ano de desenho da Escola António Arroio, mas com os professores nunca aprendi nada. Nunca gostei de aprender, a não ser comigo mesmo. A técnica é coisa muito de se lhe tirar o chapéu, mas não é o principal. Além disso, por certo, para ela não estou vocacionado. A alma é a minha técnica, e se há algum valor naquilo que faço, isso advém de um excesso de alma.
Repito que sempre utilizei papéis de acaso, por vezes quadriculados ou de 35 linhas. Parecia-me que ninguém quereria comprar tais coisas, mas o passar dos anos vieram a me revelar o contrário. Se há realmente alguma glória naquilo que fiz (glória é uma palavra evidentemente excessiva), ela advém desta experiência, de conseguir algum consenso, usando tais suportes.
Quanto às figurações que se movimentam naquilo que desenho e pinto elas vêm directamente do subconsciente, mas também dos encontros que vamos fazendo pelas ruas, dos livros que lemos, das guerras e das fomes, e de uma ou outra coisa boa que ainda nos toca. Muitos dos desenhos são feitos quando estou ao telefone. Com a atenção dividida, aquilo que aparece é mais livre; a mão vai e vem por ali fora, como traçando um gráfico. Conheço pintores, que muito prezo, que são capazes de dizer como vai ser o próximo quadro. Eles já sabem tudo, já o estão a ver. Eu, estou cego diante do papel ou da tela. Se “visse” o quadro antes de o fazer, por certo já não o faria, pois me pareceria que já tinha passado o seu tempo. Mas o meu método não será o melhor, pois que não dá para ser um grande nome da pintura. O que vos deixo são apenas depoimentos ou testemunhos.

Funesto som, trepa a varanda em luz escarlate

Recuperar uma casa, um lugar. Um extremo doce, nas latitudes da memória.
Avançar austera, qual cavaleiro andante, nas regiões mais imprecisas da imaginação.
Ser finalmente matéria-poema, continuar...